sábado, 3 de janeiro de 2015

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PAPISA


Vontade de escrever e de ler o que escrevi.
Escrever mulher ou palavra.
Escrever mulher é como escrever toalha.
Escrever palavra é como escrever trevo.
Toalha molhada sobre a cama.
Trevo de quatro folhas não é trevo, é coisa sem nome.
Toalha de mesa molhada de vinho derramado.
Trevo desfolhado. 
Palavra atrevida.
Entrevero de palavras é inspiração.
Mulher é palavra pouca como toalha para secar o mar.
Mulher é palavra entrevada.
Quero uma palavra espaçosa para escrever toalha de mesa para a santa ceia e seus treze homens sentados.
Quero uma palavra grandiosa para escrever palavra sem nome, palavra que não significa nada depois de desfolhada. Era trevo, depois virou folha, depois poeira na estrada.
Num trevo da estrada não tem a quarta via, encruzilhada, palavra robusta. 
Encruzilhada é mais mulher na palavra.
Arbusto de trevos é dicionário para tudo que não tem significado.
Busto robusto.
Trevo entrevado.
Mulherada.
Muralha.
Para escrever mulher com quatro folhas, dedico uma folha para o seio direito, uma para o seio esquerdo, uma para as nádegas e outra para a buceta.
Podia escolher outra palavra para o destino desta quarta e última folha.
A folha que não é do trevo, mas que é da encruzilhada.
Para escrever mulher me dispo da palavra.
Para escrever palavra livro-me da folha.
Arranco do livro as folhas.

sábado, 28 de dezembro de 2013

A CARTA DA CASA | "Lupus est homo homini non homo" (Plauto).


Para  HOMENS.

Inspirado na sequência: A FORÇA - O DIABO - A PAPISA - A JUSTIÇA.

O homem é o lobo do próprio homem.
E se um homem quer o que o outro homem também quer,
lobos brigam,
lobos sangram,
lobos morrem.

Um homem abre mão de seu desejo e dá ao lobo do outro seu fígado, seu coração, suas tripas.
E o desejo permanece faminto.
Mais tarde além de querer, ele descobre que tem poder.
Ele se apodera da coisa desejada, na força, na marra.
E se ele pode, ele compra a coisa, ele paga.


O outro lobo, quando pode menos, lambe os beiços, chupa o dedo e come lentamente a si mesmo.
Dê ao lobo o que lhe é de direito.
O lobo no homem divide o conteúdo do pote.
O lobo no homem é o homem.
Ensina teu lobo a pensar.
Ensina teu homem a farejar, rastrear, atacar.
Bota teu lobo pra estudar, ler, pesquisar.
Bota teu homem pra urinar nos cantos, demarcando terreno, protegendo a cria, alimentado a matilha.
O homem dorme na cama.
O lobo na cama não consegue dormir.
Deixa dar meia-noite pro lobo ser todo o homem.
Lua cheia. Cheio.
Lobisomem.
Deixe que ele uive madrugada adentro.
Para que o homem desperte leve, para que não pese mais que uma pena, seu puro coração.


Com amor

Adriana Azenha

sábado, 16 de novembro de 2013

A CARTA DA CASA | Brigar de Brincar.

Foram colocados de costas um para outro.
Um duelo.
As armas, apesar de diferentes, eram equivalentes.
Difícil saber se algum dos lados poderia levar vantagem.
Agir pela lógica.
Agir por instinto.
Qualquer das ações tinha um potencial de vitória.
Um ataque planejado ou um ataque impulsivo.
Um duelo estratégico ou um duelo imprevisível.
Na plateia, a torcida dividida, se divertia.
Bons de briga, quem morreria?
Uma facada no estômago.
Um pescoço estrangulado.
O juiz ergue o braço.
Duelo iniciado. 
Oito passos para cada lado.
E frente a frente, abandonaram as armas e correram para
o abraço.
Desarmados.
Cada lado.
Quero vivo este lado para construir os muros.
Quero vivo este lado para pular os muros.
Constrói em mim.
Pula comigo.
FIM.
Foto Viviane Fracari


Inspirado na sequência:

A Justiça - O Imperador - A Força - O Sol.


domingo, 13 de outubro de 2013

A CARTA DA CASA | Sacola de Praia

Para: Elisandra Mariko Takamine
Inspirado na Sequência: O SOL - A MORTE - A JUSTIÇA - O LOUCO

Foto: Viviane Fracari
Já passava do meio-dia...
O filtro solar não dava para dois.
Então passei um pouco nas costas do outro para proteger.
E o outro passou um pouco em meu peito para me proteger.
Minhas costas expostas.
Teu peito exposto.
Mais tarde as costas queimadas.
Mais tarde o peito ardendo.
Mais tarde o incômodo, a dor, o desconforto.
Pele morta.
...
Pele nova nas minhas costas.
Pele nova no teu peito.
Pensei dividir o quanto tinha, pensei que assim melhor seria.
Pensei não ser egoísta: protegendo-me inteira e te expondo a dor.
O que pensei pouco importou.
Nas minhas costas crescem asas.
No teu peito nascem espinhos.
Com as asas vôo para outras praias.
O sol sempre vai arder.
Na minha sacola tem óculos escuro, água, chapéu, e uma bisnaga de filtro solar novinha.
Eu já sabia o que levar na minha sacola.
Visitei muitas praias, já ardi debaixo de muito sol.
Não posso prever a sacola do outro, não posso.
Quanto mais desprevenida do outro estou, mais longe posso chegar.
Arranca com uma pinça os espinhos do teu peito e antes de seguir por outras praias prepara tua sacola.
Pode ser que a praia esteja deserta e que não encontres ninguém para dividir contigo proteção.

Com Amor,
Adriana Azenha.