sábado, 28 de dezembro de 2013

A CARTA DA CASA | "Lupus est homo homini non homo" (Plauto).


Para  HOMENS.

Inspirado na sequência: A FORÇA - O DIABO - A PAPISA - A JUSTIÇA.

O homem é o lobo do próprio homem.
E se um homem quer o que o outro homem também quer,
lobos brigam,
lobos sangram,
lobos morrem.

Um homem abre mão de seu desejo e dá ao lobo do outro seu fígado, seu coração, suas tripas.
E o desejo permanece faminto.
Mais tarde além de querer, ele descobre que tem poder.
Ele se apodera da coisa desejada, na força, na marra.
E se ele pode, ele compra a coisa, ele paga.


O outro lobo, quando pode menos, lambe os beiços, chupa o dedo e come lentamente a si mesmo.
Dê ao lobo o que lhe é de direito.
O lobo no homem divide o conteúdo do pote.
O lobo no homem é o homem.
Ensina teu lobo a pensar.
Ensina teu homem a farejar, rastrear, atacar.
Bota teu lobo pra estudar, ler, pesquisar.
Bota teu homem pra urinar nos cantos, demarcando terreno, protegendo a cria, alimentado a matilha.
O homem dorme na cama.
O lobo na cama não consegue dormir.
Deixa dar meia-noite pro lobo ser todo o homem.
Lua cheia. Cheio.
Lobisomem.
Deixe que ele uive madrugada adentro.
Para que o homem desperte leve, para que não pese mais que uma pena, seu puro coração.


Com amor

Adriana Azenha

sábado, 16 de novembro de 2013

A CARTA DA CASA | Brigar de Brincar.

Foram colocados de costas um para outro.
Um duelo.
As armas, apesar de diferentes, eram equivalentes.
Difícil saber se algum dos lados poderia levar vantagem.
Agir pela lógica.
Agir por instinto.
Qualquer das ações tinha um potencial de vitória.
Um ataque planejado ou um ataque impulsivo.
Um duelo estratégico ou um duelo imprevisível.
Na plateia, a torcida dividida, se divertia.
Bons de briga, quem morreria?
Uma facada no estômago.
Um pescoço estrangulado.
O juiz ergue o braço.
Duelo iniciado. 
Oito passos para cada lado.
E frente a frente, abandonaram as armas e correram para
o abraço.
Desarmados.
Cada lado.
Quero vivo este lado para construir os muros.
Quero vivo este lado para pular os muros.
Constrói em mim.
Pula comigo.
FIM.
Foto Viviane Fracari


Inspirado na sequência:

A Justiça - O Imperador - A Força - O Sol.


domingo, 13 de outubro de 2013

A CARTA DA CASA | Sacola de Praia

Para: Elisandra Mariko Takamine
Inspirado na Sequência: O SOL - A MORTE - A JUSTIÇA - O LOUCO

Foto: Viviane Fracari
Já passava do meio-dia...
O filtro solar não dava para dois.
Então passei um pouco nas costas do outro para proteger.
E o outro passou um pouco em meu peito para me proteger.
Minhas costas expostas.
Teu peito exposto.
Mais tarde as costas queimadas.
Mais tarde o peito ardendo.
Mais tarde o incômodo, a dor, o desconforto.
Pele morta.
...
Pele nova nas minhas costas.
Pele nova no teu peito.
Pensei dividir o quanto tinha, pensei que assim melhor seria.
Pensei não ser egoísta: protegendo-me inteira e te expondo a dor.
O que pensei pouco importou.
Nas minhas costas crescem asas.
No teu peito nascem espinhos.
Com as asas vôo para outras praias.
O sol sempre vai arder.
Na minha sacola tem óculos escuro, água, chapéu, e uma bisnaga de filtro solar novinha.
Eu já sabia o que levar na minha sacola.
Visitei muitas praias, já ardi debaixo de muito sol.
Não posso prever a sacola do outro, não posso.
Quanto mais desprevenida do outro estou, mais longe posso chegar.
Arranca com uma pinça os espinhos do teu peito e antes de seguir por outras praias prepara tua sacola.
Pode ser que a praia esteja deserta e que não encontres ninguém para dividir contigo proteção.

Com Amor,
Adriana Azenha.




sábado, 12 de outubro de 2013

A CARTA DA CASA | La vie en rose

Para Fernanda Justina.
Inspirado na Sequência: O ENFORCADO - A TORRE DA DESTRUIÇÃO - O ENAMORADO - O IMPERADOR.

Foto: Viviane Fracari
Quando chega o período de poda no meu jardim, delicadamente corto galhos.
São pernas, são braços...
Roseiras quase desaparecem, viram pequenos caules, quase nada de folhas.
Quase me esqueço que ali há roseira.
É importante que se lembre de avisar as crianças para que não brinquem no jardim, pois elas, num descuido, podem pisar sobre a roseira. Roseira sem rosa, também é roseira.
Geada, seca, granizo, queimada, chuva brava...
Pode não ser criança, nem enxada, nem trator. 
Pode ser que seja a ausência de vontade humana sobre o desejo de florir.
Pode ser um formigueiro a me consumir.
Pode ser uma praga.
Esperava pela poda, mas veio a peste.
Porém, no amor da terra pelos seus frutos, surgem crianças que plantam roseiras nos velhos jardins.
Surgem crianças e seus regadores.
Surgem minhocas no amor da terra pelos seus frutos.
Surgem braços, pernas, tronco de roseira nova.
Meu amor colheu uma rosa no jardim para entregá-la a mim.
Há o amor da terra pelos seus frutos e também o amor de seus frutos pelos que se dão inteiros aos seus amantes.
Pode vir a poda, pode vir a peste...
O amor não se submete.
Aceito a rosa que você me oferece.
Exalo o perfume da rosa, beijo tua boca.
Sabes enxergar a rosa que em mim mora, mesmo quando me encontro em estado de poda.

Com Amor,
Adriana Azenha.


Só para ilustrar...
http://www.youtube.com/watch?v=DUFYG1EHuEw


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A CARTA DA CASA | Linguaruda.

Texto inspirado na sequência: 
A Estrela - O Enamorado - O Enforcado - A Roda da Fortuna.
Para: Maria Alice Araujo de Almeida.

Minha intuição não falha.
Ouço pensamentos.
E o que penso acontece e se acontece eu já sabia.
E quando alguém cochicha, o rabo espicha.
E quando alguém reclama, o rabo inflama.
E flecha que não acerta o coração, acerta a bunda, tal qual uma injeção.
Então não é palpitação?
É de todo tipo, menos de coração.
...e gente dando palpite, isso tem de montão.
Cortei as línguas,
mais tarde nascerão de novo,
enquanto sangram mudas,
medito na vastidão profunda.
E Raimunda hoje é a solução,
porque não há palavra na rima do meu coração...
Quando as tagarelas línguas varrerem o céu da boca eu já terei descido pelas gargantas.
A língua não me alcança, saio na frente, chego antes, sou ligeira, vou, mas volto.
Minha intuição não falha!



Depois de uma volta completa rimo meu coração de poeta:
com pão, algum tostão e muita diversão.




Com Amor,
Adriana Azenha.


















segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A CARTA DA CASA | Didática


Inspirado na sequência: O Eremita - A Justiça - A Imperatriz - A Morte.
Para: Susana Gabriela da Silva.

Foto: Viviane Fracari
Hora de testar o conhecimento.
Gosto das questões de livre escolha, pois trazem consigo a mais confiante das alternativas:
NENHUMA DAS ANTERIORES.
Nem A, nem B, nem C, nem D.
Quando a pergunta é sobre o que aprendi, podem me testar à vontade.
Caso eu não saiba, faço a prova com direito à consulta.
Sei exatamente o capítulo do livro que contém a resposta.
E com a caneta na mão direita marco um X na resposta correta.
Todas as minhas respostas estão certas.
Estou aprovada no exame.
Passei de ano sem ficar para recuperação.
Nada precisa ser recuperado...
O ano letivo acabou para um bom entendedor.
Fim, férias...
Curiosa para ver chegarem os novos conteúdos.
Os livros do ano passado serão doados, preciso abrir espaço nos meus armários.

Com Amor,
Adriana Azenha.



domingo, 29 de setembro de 2013

A CARTA DA CASA | Encrenca!

Inspirado na sequência: O Enforcado - A Justiça - A Morte - O Papa.
Para: Carolina Yoshie Kondo

Foto: Viviane Fracari
O elevador parou entre um andar e outro.
Encrencou!!!
Nem subir, nem descer. Parar no ar...
Nem sair, nem entrar. Simplesmente ficar quieta até o técnico chegar.
Sem pânico, sem chilique, sem gritos de desespero.
Abro a bolsa, pego o celular e aviso ao compromisso que vou me atrasar.
O motivo?
Ora! Por motivo de força maior.
Maior que minha vontade, que meu dever, que minha obrigação.
Quero sair, mas já que tenho que esperar, espero com profunda tranquilidade.
O técnico chega com sua chave de fenda.
Ele sabe o que fazer.
Dou a ele a oportunidade de me socorrer.
E para que o herói apareça, preciso ser um pouco prisioneira.
Hora de não fazer nada, hora de ser resgatada.
Lá fora ocorreu um movimento intenso enquanto eu fiquei em silêncio.
Minha pausa é o motivo da urgência alheia.
O elevador estava velho, vai ser trocado.
Quem parou foi o elevador...
E quando o novo for instalado, vou passear de andar em andar, num lindo elevador, novinho e de última geração.
Vou subir do térreo até o infinito e arranhar céu.