Eu imagino viver cada canto do meu espanto para me deslumbrar no entanto com a imagem que tenho de meu espelho um tanto quanto sereno. Eu me imagino sendo.
Seja bem-vindo! Os textos publicados são inspirados na linguagem pictórica não-verbal do Tarô. "O baralho de Marselha nos chega desacompanhado de um texto explicativo. Em vez disso, oferece-nos simplesmente uma história pela imagem, uma canção sem palavras, que nos acode ao espírito como um velho refrão, evocando lembranças sepultadas" (Sallie Nichols). Textos: Adriana Azenha. Fotos: Viviane Fracari. O Blog deu origem ao espetáculo teatral O MIOLO DA MISSIVA.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
eu sou.
ENCONTRO MARCADO
Depois da destruição, da queda, da chuva de pedras, do vendaval, das fracturas, da morte prematura. Ela abraçou a loucura e, sem dúvida alguma, juntou seus pertences e seguiu em frente. Passo largo, dor no braço, cansaço e também alguns calos na mão que segurava o cajado, com ele, podia prever os obstáculos, espantar serpentes, abrir caminhos,traçar o percurso do novo rumo...E entre ser uma velha menina ou uma jovem sabida, fez ela a escolha merecida. Sentada de pernas cruzadas com suas anotações feitas em um caderno secreto recebeu a visita de um homem honesto que a ajudou a entender o enredo nas entrelinhas dos seus textos. Ele iluminou seu semblante e ela criou naquele instante a mais bela história de amor, nunca vista antes.
PROCURADA
| Foto: Viviane Fracari | Atriz: Camila Bevilacqua |
Perfume, baton, cinturinha, pele macia, calcinha pequenina, sutiã de rendinha, linda, cabelo dourado, chinelinho, brinco e colar, unha francesinha e brilhante no anelar, vestido turquesa, olhos verdes, sorriso sincero, gargalhada de menina levada, simpática, engraçada, falante voz aveludada, quando mimada, solta um alto grito impositivo para ver realizada sua vontade imperial, pois no seu mundo real, o poder é dela, da linda e coroada mulher de asas, mulher alada.
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
quarto de hotel ou primavera 2010
Rápido, contínuo movimento do corpo dentro do espaço dilatado do fundo da terra. Clamam todos pelo rebento. Sopra o vento, o vácuo encontra a explosão, vem o barulho do trovão. Vem também ela cheia de gratidão pela oportuna chance de viver e aprender a humilde tarefa de ser de novo um nada. Nada, vazio, começo, uma criança num berço a brincar com um móbile, a vida se move e nossos olhos correm para alcança-la. Diante do olhar pisca-pisca a vista, pálpebra, vigília (...)
Tantas estrelas sobre minha cabeça, tanta chuva de cachoeira, meus pés na pedra, correnteza. Que canto suave, o canto da sereia. Nudez aguardando o chamado, o recado do pássaro preto avisando que a flor desabrochou, que a primavera chegou. Enxugo o corpo, penteio os cabelos, me deito. Sou terra fértil explodindo em cor. A festa da minha chegada. O amor. (...)
Derramava sobre as casas a garoa fina da noite nublada. No silêncio que morava atrás do descanso das janelas fechadas surge o perigo de ver eternamente mergulhado num lago, o tesouro afundado. Ladraram
os cães anunciando que uma mulher de escafandro adentrou a água escura e trouxe à superfície turva um baú. Um baú lacrado. Preferiu não abrir, deixou-o muito bem guardado por exatos dez dias. Precisava primeiramente despedir-se de um remorso antes de tomar posse do conteúdo raro que ficou por tanto tempo afastado do conhecimento sensivelmente humano. Depois de purificadas as mágoas, sentiu-se pronta para apropriar-se dos enigmas do mundo submerso. (...)
Tantas estrelas sobre minha cabeça, tanta chuva de cachoeira, meus pés na pedra, correnteza. Que canto suave, o canto da sereia. Nudez aguardando o chamado, o recado do pássaro preto avisando que a flor desabrochou, que a primavera chegou. Enxugo o corpo, penteio os cabelos, me deito. Sou terra fértil explodindo em cor. A festa da minha chegada. O amor. (...)
Derramava sobre as casas a garoa fina da noite nublada. No silêncio que morava atrás do descanso das janelas fechadas surge o perigo de ver eternamente mergulhado num lago, o tesouro afundado. Ladraram
os cães anunciando que uma mulher de escafandro adentrou a água escura e trouxe à superfície turva um baú. Um baú lacrado. Preferiu não abrir, deixou-o muito bem guardado por exatos dez dias. Precisava primeiramente despedir-se de um remorso antes de tomar posse do conteúdo raro que ficou por tanto tempo afastado do conhecimento sensivelmente humano. Depois de purificadas as mágoas, sentiu-se pronta para apropriar-se dos enigmas do mundo submerso. (...)
sábado, 18 de setembro de 2010
carro de passeio
Então ele abriu a porta do carro para ela entrar, pois bem...
Ela recusou, disse que preferia ir à pé.
Então ele estacionou, desceu do carro e disse:
"Pois que seja, de qualquer maneira irei acompanhá-la".
A caminhada foi descomprometida, seguiram à pé pela avenida.
O carro ficou parado aguardando o retorno dos enamorados.
Voltaram tarde, cansados. Ela mais sóbria, ele mais embriagado.
Sendo assim resolveu aceitar a carona, desde que fosse ele o passageiro e ela a condutora.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Hoje Não
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| Foto de Viviane Fracari |
Hoje eu não consigo. O mundo é grande, eu pequenina, minha estrada é bem comprida, fiquei com preguiça de começar, estou muito triste pra poder criar, inventar, fazer surgir da cartola um coelho, ou soltar uma pomba entre lenços. Estou pronta pra renascer, mas antes eu preciso morrer. E morrer dói. Hoje eu não consigo, não vou fazer meu número de mágicas, vou recolher a bancada e voltar pra casa. Amanhã quem sabe...
terça-feira, 14 de setembro de 2010
PREVISÃO
Um dia antes de conquistar o território novo, tive que eliminar algumas pendências, mas fiz tudo com prazer.
Fiz um acordo com um antigo incomodo e combinei uma lavagem na escadaria das minhas lamentações.
Para isso preparei um figurino, ou melhor dois: um de guerreira e outro de esvoaçante rapariga faceira.
Fiquei pronta pra adentrar o mundo desconhecido onde fui elevada com louvor à uma posição privilegiada.
Então cercada de gente admirada com minha regenerada aparição. Vivi um dia de grande alegria e comoção.
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