Trazer à tona, tornar visível o verdadeiro princípio. Coragem...
De um lado o saber inato, a intuição, a ação involuntária.
Do outro lado o saber desejado, o querer, a ação planejada.
Os dois lados se olham, se encaram.
O natural de escudo na mão.
O sábio com seu lampião.
Saber na escuridão é como saber e não ter o quê fazer.
O natural não quer mais se defender, deixa o clarão esclarecer.
Fim do conflito, o invisível emerge da sombra, o natural organiza os sentidos e constrói com a ajuda do sabido, do escolhido, um sonho possível, o atingível. O real sem os disfarces do inimigo.
Seja bem-vindo! Os textos publicados são inspirados na linguagem pictórica não-verbal do Tarô. "O baralho de Marselha nos chega desacompanhado de um texto explicativo. Em vez disso, oferece-nos simplesmente uma história pela imagem, uma canção sem palavras, que nos acode ao espírito como um velho refrão, evocando lembranças sepultadas" (Sallie Nichols). Textos: Adriana Azenha. Fotos: Viviane Fracari. O Blog deu origem ao espetáculo teatral O MIOLO DA MISSIVA.
sábado, 23 de outubro de 2010
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
O DESEJO DE TODOS
Segurou o leão à força e antes que ele a devorasse, silenciou nela o rugido feroz que ecoava dentro de sua alma contrariada. Silêncio...O leão cedeu ao abraço, morreu um duplo cansaço, o cansaço da fúria e o cansaço do interminável. Desejamos todos que daqui pra frente o embate seja diferente, que ela não precise nunca mais se desculpar e que ele possa rugir feliz noutro lugar.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Fartas Ideias
Trouxe muitas ideias na sacola, colocou-as sobre a mesa, aproveitou quase todas.
Preparou com as ideias uma refeição completa.
Então comeram, ficaram todos satisfeitos.
Lavou a louça, tirou a toalha da mesa e serviu os doces na varanda.
As ideias estavam frescas, comeram de joelhos.
E só foram embora depois do café.
Pois foi o tempo que precisaram para digerirem as ideias.
Eram frescas, saborosas, mas provocavam uma alegria louca, uma euforia boba...
Por isso é que de tempo em tempo, ela colhia ideias e preparava-as para serem servidas com fartura e festa nos aposentos da casa dela.
Temporada de ideias no pomar da Dna Adélia.
Preparou com as ideias uma refeição completa.
Então comeram, ficaram todos satisfeitos.
Lavou a louça, tirou a toalha da mesa e serviu os doces na varanda.
As ideias estavam frescas, comeram de joelhos.
E só foram embora depois do café.
Pois foi o tempo que precisaram para digerirem as ideias.
Eram frescas, saborosas, mas provocavam uma alegria louca, uma euforia boba...
Por isso é que de tempo em tempo, ela colhia ideias e preparava-as para serem servidas com fartura e festa nos aposentos da casa dela.
Temporada de ideias no pomar da Dna Adélia.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Em Agradecimento
Morta. Enterrada. Vestiram-na com a roupa que ela mais gostava.
Estava muito branca, Pintaram-lhe a cara. Dormiu exausta e levou junto ao seu sono o desenganado tempo vivido, mas que sabia ela, ter sido tudo aquilo parte de um compromisso. Viveu comprometida com a vontade que tinha de amar. E amou até o último suspiro, cumpriu seu compromisso. Até alí, viveu o que tinha de ser vivido. Um amor que se acabou, que partiu para dar lugar a outro que estaria ainda por chegar.
Em outro tempo acordaria tão viva, tão corada e descansada. Começaria então uma nova jornada.
Não lembraria de nada...Não lembraria mais da dor que sentiu no peito no momento em que seu coração se viu obrigado a parar de bater, pois batia em vão, suas batidas já não tinham razão de assistir, de pulsarem naquela direção. Abriu mão do seu amor, sacrificou...Foi tanta dor. Por isso ela será poupada de reviver toda essa mágoa, não lembrará de nada. Acordará feliz e apaixonada.
Abrirá a janela, irá arrumar a cama, lavar o rosto, tomar café e agradecer, sem perceber, à morte, por ter lhe concedido ainda em vida a possibilidade de nascer de novo e ainda por cima, mais bonita.
Estava muito branca, Pintaram-lhe a cara. Dormiu exausta e levou junto ao seu sono o desenganado tempo vivido, mas que sabia ela, ter sido tudo aquilo parte de um compromisso. Viveu comprometida com a vontade que tinha de amar. E amou até o último suspiro, cumpriu seu compromisso. Até alí, viveu o que tinha de ser vivido. Um amor que se acabou, que partiu para dar lugar a outro que estaria ainda por chegar.
Em outro tempo acordaria tão viva, tão corada e descansada. Começaria então uma nova jornada.
Não lembraria de nada...Não lembraria mais da dor que sentiu no peito no momento em que seu coração se viu obrigado a parar de bater, pois batia em vão, suas batidas já não tinham razão de assistir, de pulsarem naquela direção. Abriu mão do seu amor, sacrificou...Foi tanta dor. Por isso ela será poupada de reviver toda essa mágoa, não lembrará de nada. Acordará feliz e apaixonada.
Abrirá a janela, irá arrumar a cama, lavar o rosto, tomar café e agradecer, sem perceber, à morte, por ter lhe concedido ainda em vida a possibilidade de nascer de novo e ainda por cima, mais bonita.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
O Amor da Angélica Temperança pelo Enforcado Cabeça de Nabo
Ela suspirava sempre que ouvia uma canção. A música vinha de longe, parecia o som de um velho violoncelo. Seu coração ficava apertado, ela imaginava que mãos eram aquelas que comprimiam as cordas, dedos e cordas e um arco a arrancar espasmos tensos de tal instrumento. Suspirava...e na sua tarefa diária de temperar o intenso e por vezes o desanimado tempo, para chegar ao equilíbrio do lago sereno, distraída, abandonou os jarros e seguiu a vibração até chegar ao local de onde vinha o som. Hipnotizada adentrou a casa e viu ao espiar pela porta da sala um homem sentado, tinha uma cabeça de nabo, um pé amarrado à uma corda e cresciam ao seu lado, uma à esquerda e outra à direita, duas árvores de cerejeiras, estavam recém podadas e de seus galhos ainda escorriam sangue e seiva, lágrimas de cerejeiras. Ele não notou sua presença, continuou tocando, tocando. À certa altura cochilaram ambos, ele abraçado ao chello e ela encostada na parede gelada do corredor que dava para sala. Acordou assustada, pois sentiu sua roupa molhada, notou que a casa estava inundada, a água já chegara aos tornozelos. Ergueu o vestido comprido e já ia saindo quando lembrou-se da música, resolveu espiar novamente a sala e lá estava o violoncelo envergado a boiar na água e ele dependurado de cabeça para baixo e com as mãos atadas. Parecia estar sorrindo e dançando. Ela quis se aproximar, pensou em ajudar, pois se água continuasse a subir ele logo se afogaria, mergulharia sua cabeça de nabo na água fria que rápida subia inflando o vestido dela, resfriando suas pernas. A mobília toda à flutuar. Ela agarrou-se a cerejeira, subiu nos galhos podados como se subisse uma escada, sentiu nos pés e nas mãos a grudenta seiva. Estava ela trepada na cerejeira que estava à esquerda do dependurado, tentou alcançar a corda para desatar o nó do pé, apenas um pé estava amarrado, o outro livre lembrava o movimento de um dançarino de polka. Quando finalmente ela conseguiu chegar até a corda ele gritou " Por favor não solta!". Ela se assustou, desequilibrou e caiu de costas na água que já banhava os cabelos do tal prisioneiro. Por alguns instantes ela ficou a boiar agarrada ao violoncelo. Parecia uma náufraga sustentada por uma tora de madeira sendo levada pela correnteza em direção a queda livre da cachoeira. Lembrou-se dos jarros e do destempero de tê-los abandonado, eles derramaram um oceano de um mar acumulado, salgado. O destemperado mar que ela deixou para trás ao sair em busca da música. Com as asas molhadas, pesadas, encharcadas, tentou voar para botar no lugar o fluxo inesgotável das águas, pois a essa altura já haviam consumido até a cintura o submerso Enforcado, agora afundado com sua cabeça de nabo a criar raiz no imenso oceano. Quando só se podia ver na superfície, apenas o pé esquerdo ainda preso à viga de madeira fixada sobre as cerejeiras, ela recuperou seus jarros e sobrevoou em desespero a casa inundada, adentrou a sala num vão estreito entre o teto e a água, desatou o nó e libertou o dançarino para que ele dançasse com os golfinhos, os cardumes e as sereias. Em algum lugar no fundo do mar, ele esculpiu os corais, esticou as algas e fez surgir um violoncelo. Vive feliz a tocar, a reger, a bailar, transformou o mar em música, são poucos capazes de escutar. Ela escuta. Quando cansada de uma longa caminhada, sempre precisa de um poço pra beber água e enquanto ergue o balde de ferro com a manivela, ela pode ouvir a música no fundo do poço, no balde, na caneca, dentro de sua boca, na saliva que umidece sua garganta. Ela engole a música, mata a sede, segue em frente, mais contente. Sabe que o amor que tem por ele é nutriente para sua inspiração, para trilhar seu livre caminho, vivido passo a passo e com muita paixão.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Exclamou a Princesinha
A menina maluquinha esta sempre fazendo arte na cozinha, no quintal, na rua, na casa da vizinha.E se eu acreditar na insanidade infantil que brinca de amarelinha, um pé, dois pés, pisa o céu, salta o inferno dentro da minha cabeça de menina.
A menina que solta pum, senta de perna aberta, tira catota do nariz, gruda debaixo da mesa e depois arrota feito uma princesa.Gosto da loucura infantil, a loucura do palhaço que apronta e desapronta, mas nunca leva bronca, pois no fim das contas, sorte de quem viu, ouviu e riu com sua loucura fanfarrônica, bufônica de uma mestre de cerimônias sem nenhuma cerimônia.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
eu sou.
Eu imagino viver cada canto do meu espanto para me deslumbrar no entanto com a imagem que tenho de meu espelho um tanto quanto sereno. Eu me imagino sendo.
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