domingo, 26 de agosto de 2012

Cartas Curtas | INTRÍNSECA

Viviane Fracari
Quando vou sofrer o mal do mundo, olho bem para ele, de frente, e então, não sofro, transmuto.
Quando assumo meu lugar no mundo, todo o lugar é mundo.
Quando sou o mundo, sou.
E quando paro de pensar o mundo, aqui estou.


Inspirado na sequência: O Diabo, A Imperatriz, O Mundo, O Enforcado.

sábado, 18 de agosto de 2012

Cartas Curtas | CIRCULAÇÃO

foto de Adriana Azenha

Pode me abraçar, já não estou tão fria, botei o sangue para circular.
Veias e artérias desobstruídas.
Soube que Deus olhou para os rios represados, pensou, pensou, pensou...
Catou uma tela em branco, pincéis e tintas coloridas.
Então, Ele redesenhou o curso dos rios, abriu as comportas e a água escoou.
Fiquei bem bonita, rosto corado, uma expressão de menina, meu pé nunca mais formigou.
Posso ficar horas, sentada com as pernas cruzadas, lendo, escrevendo, meditando, contemplando.
As pernas bem acordadas recebem suas águas, correntes sanguíneas dos rios que Deus, com sua graça, me concedeu...
Pode me abraçar! 

Inspirado na sequência: O Sol, O Mago, O Mundo e A Papisa.

domingo, 29 de julho de 2012

AS CARTAS CURTAS | A SÍNTESE





















Viviane Fracari
Ficar sozinha para arrumar a casa, para estudar compenetrada. 
A vida funciona continuada, a oferta é variada e a escolha acertada.

Sequência: A Estrela, A Papisa, A Roda da Fortuna e O Mago.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

a Carta do Corpo | O GUIZO



Foto de Viviane Fracari

Então, depois de ter dormido uma eternidade, ela se levantou.
Os joelhos duros, as costas curvadas, o pescoço inclinado para baixo.
Só sabia olhar para o chão.
Logo viu que se tratava de um milagre, pois a sua volta, podia-se ver uma histeria coletiva, uma comoção descontrolada...
Ergueu a cabeça e caminhou em direção ao abraço do vento. Um vento morno que envolveu seu corpo e que com braços longos desenhou no ar um caminho distante, um caminhar para longe, um percurso amplo, uma imensidão, uma visão do sem fim.
Ela caminhou dançando a dança dos ventos e recebeu um novo endereço.
Recebeu muitas coisas novas: roupas, sapatos, anéis, perfumes, colares, lenços, livros e músicas.
Recebeu presentes de todos os tipos: de beijos a toques, de chocolates a vinhos. Eram presentes lindos!
Seu sorriso estava mais bonito, sua pele mais limpa.
Seu corpo surpreendentemente resistente preparou a terra, fez o seu arado e semeou um futuro ensolarado.
Seria possível ela brotar da terra? Seria possível ela rasgar a terra com sua fragilidade de caule novo e sair com seu broto em direção a luz, ao vento, sedenta de água, de terra molhada? Seria possível a semente ventre trazer de volta a mulher que tinha sido dada como morta?
Seria possível fazê-la criar raízes novas e firmar-se de pé e crescer árvore de grande copa?
Seria possível?
Seria possível?
Seria?
Sim, sim e sim. Que sim mais puro nasce junto com ela.
Um sim para vida. Um sim para a misericórdia da vida. Perdoem-me se preciso agora ser misericordiosa, perdoem-me. É preciso ser para o corpo poder renascer!
Olhem bem para ela. Olhem com atenção, ela tem um escudo na mão. Ela tem proteção.
Ela tem coroa e asa. Ela voa.
Ela está prenha de si mesma, orgulhosa de sua fecundação.
Pode dar à luz todos os dias, pode parir cada hora, pode parir sua história.
Não vai olhar para trás, não agora. Não vai olhar para a própria cova, não agora.
Não vai olhar porque não há necessidade.
Não é preciso dizer adeus aos que ficam, fazer agradecimentos, acenar, mandar beijos.
Não, não é preciso. Não aos ingratos, não aos cegos, não aos rudes, não aos rasos, não aos tristes, não aos duros, não aos intolerantes, aos perfeitos, aos senhores de todas as razões. Não!
Não será preciso pedir licença para sair. A casa é minha, a terra é minha, a vida é minha. Estou de saída!
Não aos que ignoram a beleza da minha partida.
Não, não e não. Que não mais puro nasce junto com ela.
E com o sim na mão esquerda e o não na mão direita, ela segue viagem.
Altiva, solene, digna.
Retira do bolso uma fita comprida e colorida com um guizo amarrado na ponta.
Ela amarra o guizo ao seu pescoço, pois sabe que quando ela estiver ausente de si mesma, o barulho do guizo poderá trazê-la de volta, o barulho do guizo anunciará sua presença para que ela esteja sempre presente em si mesma.
FELIZ VIDA NOVA!

Inspirado na sequência: O Julgamento, O Mago, A Imperatriz, O Carro.




terça-feira, 29 de maio de 2012

a Carta do Corpo | Desestrutura



Foto de Viviane Fracari


Vamos desabotoar a camisa? 
Vamos deixar o corpo nu?
A camisa é colorida e o corpo neste momento é preto.
Uma ausência de cor.
Um corpo preto apoiado no solo, como um prego aguardando o martelo.
O tempo foi suficiente para que o corpo revelasse o segredo escondido.
O corpo segurava, com as mãos para trás, o segredo.
"Adivinha o que eu tenho nas mãos?"
Um buquê de flores ou um rato?
Um anel ou um pão embolorado?
Um chocolate ou uma pedra?
Um brinquedo ou um crucifixo?
Um lenço ou uma corda?
Adivinha! Você é ou não é uma menina espertinha?

O corpo estava de mãos vazias, desde muito tempo... E a menina sabia.
Fez-se de ingênua e jogou o jogo, arriscou um palpite e disse:
"Um pássaro! Tens um pássaro escondido."
O corpo encerrou o assunto. Disse a ela que não tinha um pássaro, mas sim uma arapuca.
Uma arapuca vazia de pássaro, uma arapuca na expectativa do pássaro, uma arapuca que no vazio de sua existência, que sem pássaro, é apenas espaço vago. E que com pássaro, é arapuca preenchida da esperançosa liberdade.
"Quer a arapuca para ter o pássaro?"
A menina começou a chorar, não gostou da surpresa, guardou a arapuca, aceitou o presente, mas jamais capturou o pássaro. Jamais quis preencher o vazio das mãos do corpo com o interrompido vôo do pássaro.

De um lado a esperança. E do outro?
A arapuca desarmada era uma pirâmide de madeira inacabada.
Uma pirâmide sem faraó.
Desmontou a arapuca e refez a estrutura.
Nunca mais arapuca, nunca mais gaiola, nunca mais sarcófago de faraó em pirâmide alguma.
Nada de túmulo para vivas almas.
Nada de mãos que de tão vazias clamam por preenchimento se valendo do vôo alheio.

Refez a estrutura.
No lugar de arapuca agora se pode ver um cesto, um ninho, um berço.
Cada ripa de madeira transformada em fruteira.
Seja pra ovo, fruto ou feto.
O corpo tem que estar com mãos preenchidas de mundo.
Infinito mundo.
O corpo estava vestido com todas as cores. Vestiu-se de branco e saiu rodopiando.


(participam deste texto: O Enforcado, A Justiça, O Mago e O Mundo).






terça-feira, 15 de maio de 2012

O Miolo da Missiva | Quando a obra escolhe seus criadores

Vídeo do espetáculo teatral O Miolo da Missiva
em temporada na Oficina Cultural Oswald de Andrade
outubro e novembro de 2011.


 A EXPERIÊNCIA CONTINUA, ACOMPANHEM O BLOG:
Os textos de O Miolo da Missiva, A Carta Crua e a Carta do Corpo.



domingo, 22 de abril de 2012

a Carta do Corpo | ASCENSÃO EM 21 DE ABRIL DE 2012


Escolheram-se: a Mulher da língua afiada na justa medida da palavra, o Mestre dos corpos e porta voz das muitas falas, a Senhora do carvão com seus livros na mão e a Saia Rodada de tom grave que girava com profunda austeridade.
A ascensão estava anunciada.


Sobre a Mulher da língua afiada

Ela fez uma festa em um lindo palacete construído para ser inaugurado no último dia do seu reinado.
Todos os presentes já sabiam que ela subiria a íngreme escada de ferro.
A vermelha escadaria.
Então fizeram fila para ouvirem as suas palavras de despedida.
Ela foi homenageada com muitas honrarias, com discursos, danças, canções e poesias.
Ela provocou o inesperado, riu e gargalhou com tudo que deu errado, ridicularizou o pudor, aplaudiu o fogo e pediu que vaiassem até que o fracasso enfim terminasse.
Ascendeu despedindo-se da matéria. Ela doou para leilão seus colares, suas pulseiras, seus anéis. Leiloou sua voz. Deu de presente seu corpo e seu coração.
Deixou todo o barulho dos seus gritos, deixou seu nariz de palhaço, deixou sua expressão livre.
Sua língua afiada virou tinta, tecido, plástico, ferro, madeira. 
Sua língua afiada virou teatro, dança, cinema.
Sua língua afiada virou arte e escorre pelas paredes verdes de seu palacete.
Quem quiser ouvir agora a justa medida das suas palavras, terá que ser livre o bastante para desfilar em praça pública de maiô, com a bunda suja de cocô e com a merda a escorrer pelas pernas.
Terá que ser livre o bastante para se expor sem temer o vexame.
Terá que ser livre, minimamente livre, para fazer da existência uma experiência VERDADEIRA.



Sobre o Mestre dos corpos.

Ele riu do esquecimento para não virar ressentimento.
Poderia lamentar, mas preferiu trabalhar.
Ascendeu para um novo dia e sabiamente fez o que já fazia.
Ele sabe que o que mudou foi a qualidade da hora, mas que o tempo continua sendo o mesmo.



Sobre a Senhora do carvão.

quero em sonho ver tua mão pintada de carvão sobre minha face pálida.
quero te emprestar minha caneta para escreveres nas minhas costas as palavras que mais gostas.
por que nas costas?
para que eu tenha que pedir aos outros que leiam em voz alta.
quero que os outros leiam onde meus olhos não alcançam.



Sobre a Saia Rodada de voz grave.

Um trono nunca poderá ficar vazio.
...
Então disse uma sábia mulher do povo:
"Não tenho inveja do seu poder porque eu tenho o meu"
Seja bem-vindo o novo PODER.

Que a ascensão seja para todos!!!