sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Cartas Curtas | Refúgio do Barulho!

Às vezes a canção ofertada é tortura para os ouvidos.
É impossível manter a concentração.
Sou obrigada a desligar da tomada a máquina do som.
De repente, a vibração pode estourar os vidros e acordar os vizinhos.
Pode provocar alarido nas ruas e o latido dos cães enfurecidos.
Quanto maior o meu isolamento acústico, mais barulho escuto, no meu perturbado refúgio.

Inspirado na sequência: A Estrela, O Julgamento, O Eremita, A Lua.


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Cartas Curtas | O MAL QUE HÁ EM MIM.

Foto de Viviane Fracari

Posso salgar tua comida, botar água na tua pinga.
Posso queimar tua camisa com a bituca do meu cigarro se você olhar pra moça da mesa ao lado.
Posso amarrar teu pé na cruz em nome de Jesus.
É... Eu posso te amaldioçar! 
Posso, mas não quero, pois o mal que há em mim é bom demais pro pouco bem que você me faz!!!




Inspirado na sequência: A Estrela, O Enamorado, O Enforcado, O Diabo.

domingo, 26 de agosto de 2012

Cartas Curtas | INTRÍNSECA

Viviane Fracari
Quando vou sofrer o mal do mundo, olho bem para ele, de frente, e então, não sofro, transmuto.
Quando assumo meu lugar no mundo, todo o lugar é mundo.
Quando sou o mundo, sou.
E quando paro de pensar o mundo, aqui estou.


Inspirado na sequência: O Diabo, A Imperatriz, O Mundo, O Enforcado.

sábado, 18 de agosto de 2012

Cartas Curtas | CIRCULAÇÃO

foto de Adriana Azenha

Pode me abraçar, já não estou tão fria, botei o sangue para circular.
Veias e artérias desobstruídas.
Soube que Deus olhou para os rios represados, pensou, pensou, pensou...
Catou uma tela em branco, pincéis e tintas coloridas.
Então, Ele redesenhou o curso dos rios, abriu as comportas e a água escoou.
Fiquei bem bonita, rosto corado, uma expressão de menina, meu pé nunca mais formigou.
Posso ficar horas, sentada com as pernas cruzadas, lendo, escrevendo, meditando, contemplando.
As pernas bem acordadas recebem suas águas, correntes sanguíneas dos rios que Deus, com sua graça, me concedeu...
Pode me abraçar! 

Inspirado na sequência: O Sol, O Mago, O Mundo e A Papisa.

domingo, 29 de julho de 2012

AS CARTAS CURTAS | A SÍNTESE





















Viviane Fracari
Ficar sozinha para arrumar a casa, para estudar compenetrada. 
A vida funciona continuada, a oferta é variada e a escolha acertada.

Sequência: A Estrela, A Papisa, A Roda da Fortuna e O Mago.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

a Carta do Corpo | O GUIZO



Foto de Viviane Fracari

Então, depois de ter dormido uma eternidade, ela se levantou.
Os joelhos duros, as costas curvadas, o pescoço inclinado para baixo.
Só sabia olhar para o chão.
Logo viu que se tratava de um milagre, pois a sua volta, podia-se ver uma histeria coletiva, uma comoção descontrolada...
Ergueu a cabeça e caminhou em direção ao abraço do vento. Um vento morno que envolveu seu corpo e que com braços longos desenhou no ar um caminho distante, um caminhar para longe, um percurso amplo, uma imensidão, uma visão do sem fim.
Ela caminhou dançando a dança dos ventos e recebeu um novo endereço.
Recebeu muitas coisas novas: roupas, sapatos, anéis, perfumes, colares, lenços, livros e músicas.
Recebeu presentes de todos os tipos: de beijos a toques, de chocolates a vinhos. Eram presentes lindos!
Seu sorriso estava mais bonito, sua pele mais limpa.
Seu corpo surpreendentemente resistente preparou a terra, fez o seu arado e semeou um futuro ensolarado.
Seria possível ela brotar da terra? Seria possível ela rasgar a terra com sua fragilidade de caule novo e sair com seu broto em direção a luz, ao vento, sedenta de água, de terra molhada? Seria possível a semente ventre trazer de volta a mulher que tinha sido dada como morta?
Seria possível fazê-la criar raízes novas e firmar-se de pé e crescer árvore de grande copa?
Seria possível?
Seria possível?
Seria?
Sim, sim e sim. Que sim mais puro nasce junto com ela.
Um sim para vida. Um sim para a misericórdia da vida. Perdoem-me se preciso agora ser misericordiosa, perdoem-me. É preciso ser para o corpo poder renascer!
Olhem bem para ela. Olhem com atenção, ela tem um escudo na mão. Ela tem proteção.
Ela tem coroa e asa. Ela voa.
Ela está prenha de si mesma, orgulhosa de sua fecundação.
Pode dar à luz todos os dias, pode parir cada hora, pode parir sua história.
Não vai olhar para trás, não agora. Não vai olhar para a própria cova, não agora.
Não vai olhar porque não há necessidade.
Não é preciso dizer adeus aos que ficam, fazer agradecimentos, acenar, mandar beijos.
Não, não é preciso. Não aos ingratos, não aos cegos, não aos rudes, não aos rasos, não aos tristes, não aos duros, não aos intolerantes, aos perfeitos, aos senhores de todas as razões. Não!
Não será preciso pedir licença para sair. A casa é minha, a terra é minha, a vida é minha. Estou de saída!
Não aos que ignoram a beleza da minha partida.
Não, não e não. Que não mais puro nasce junto com ela.
E com o sim na mão esquerda e o não na mão direita, ela segue viagem.
Altiva, solene, digna.
Retira do bolso uma fita comprida e colorida com um guizo amarrado na ponta.
Ela amarra o guizo ao seu pescoço, pois sabe que quando ela estiver ausente de si mesma, o barulho do guizo poderá trazê-la de volta, o barulho do guizo anunciará sua presença para que ela esteja sempre presente em si mesma.
FELIZ VIDA NOVA!

Inspirado na sequência: O Julgamento, O Mago, A Imperatriz, O Carro.




terça-feira, 29 de maio de 2012

a Carta do Corpo | Desestrutura



Foto de Viviane Fracari


Vamos desabotoar a camisa? 
Vamos deixar o corpo nu?
A camisa é colorida e o corpo neste momento é preto.
Uma ausência de cor.
Um corpo preto apoiado no solo, como um prego aguardando o martelo.
O tempo foi suficiente para que o corpo revelasse o segredo escondido.
O corpo segurava, com as mãos para trás, o segredo.
"Adivinha o que eu tenho nas mãos?"
Um buquê de flores ou um rato?
Um anel ou um pão embolorado?
Um chocolate ou uma pedra?
Um brinquedo ou um crucifixo?
Um lenço ou uma corda?
Adivinha! Você é ou não é uma menina espertinha?

O corpo estava de mãos vazias, desde muito tempo... E a menina sabia.
Fez-se de ingênua e jogou o jogo, arriscou um palpite e disse:
"Um pássaro! Tens um pássaro escondido."
O corpo encerrou o assunto. Disse a ela que não tinha um pássaro, mas sim uma arapuca.
Uma arapuca vazia de pássaro, uma arapuca na expectativa do pássaro, uma arapuca que no vazio de sua existência, que sem pássaro, é apenas espaço vago. E que com pássaro, é arapuca preenchida da esperançosa liberdade.
"Quer a arapuca para ter o pássaro?"
A menina começou a chorar, não gostou da surpresa, guardou a arapuca, aceitou o presente, mas jamais capturou o pássaro. Jamais quis preencher o vazio das mãos do corpo com o interrompido vôo do pássaro.

De um lado a esperança. E do outro?
A arapuca desarmada era uma pirâmide de madeira inacabada.
Uma pirâmide sem faraó.
Desmontou a arapuca e refez a estrutura.
Nunca mais arapuca, nunca mais gaiola, nunca mais sarcófago de faraó em pirâmide alguma.
Nada de túmulo para vivas almas.
Nada de mãos que de tão vazias clamam por preenchimento se valendo do vôo alheio.

Refez a estrutura.
No lugar de arapuca agora se pode ver um cesto, um ninho, um berço.
Cada ripa de madeira transformada em fruteira.
Seja pra ovo, fruto ou feto.
O corpo tem que estar com mãos preenchidas de mundo.
Infinito mundo.
O corpo estava vestido com todas as cores. Vestiu-se de branco e saiu rodopiando.


(participam deste texto: O Enforcado, A Justiça, O Mago e O Mundo).