quinta-feira, 9 de setembro de 2010

LANTERNA

Está escuro lá fora. Está escuro aí dentro. Acende a lanterna na sua testa, entra nessa caverna.Tem fogo no centro da terra, tem  um vulcão prestes a entrar em erupção. Faz sua fogueira ancestral, sua faísca de neandertal. Ilumina a trilha, encontra sua saída. Vence o breu que escureceu sua vista, vê se enxerga com os olhos arregalados, o sábio andarilho cansado que vive a guiar seus passos. Ele anuncia o fim dessa busca exaustiva. A cobra cega retira a venda dos olhos com coragem e agora você vislumbra o centro e a periférica paisagem.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

as pazes

DOIS CULPADOS
UM CURADO
OUTRO CURVADO
DOIS COM RAZÃO
UM TURRÃO
OUTRO DESILUSÃO
DOIS FERIDOS
UM CAÍDO
OUTRO GEMIDO
DOIS AJOELHADOS
UM CALADO
OUTRO AMORDAÇADO
DOIS AMIGOS
UM EM PERIGO
OUTRO SEM ABRIGO
DOIS RESGATADOS
UM MACHUCADO
OUTRO ESPARADRAPO
DOIS DE MÃOS DADAS
UM CONTANDO PIADA
OUTRO DANDO RISADA 

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O Presente

A caixa era quadrada e tinha uma fita branca enrolada.
Dentro tinha o amor envolto em papel de seda.
Ele desembrulhou, colocou junto ao corpo e depois experimentou.
Caiu-lhe bem o amor, como uma luva ele comentou.
O anjo que lhe presenteou sorriu com satisfação,
pois tinha escolhido o amor sob medida para aquela ocasião.
Ficaram todos muito alegres, o anjo temia ter errado na escolha da cor.
Ficou com o azul, ao invés do vermelho, pensou combinar o amor desse jeito.
Ele arrancou a etiqueta, em prova de sua certeza.
Sabia o anjo que amores são trocados quando o tamanho é largo ou apertado.
Que alívio sentiu o anjo quando viu seu presente aceito com tanto apreço.
Voltou batendo asas pra nuvem clara onde morava.
E na casa dele, daquele que recebeu o presente, pudiasse ver reluzente, o azul amor incandescente.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

em pleno juízo

Coisas inteiras, completas.


Um quebra-cabeça à espera da última peça. Encaixou...


A visão justa da totalidade.


Obra concluída, refeição à mesa, embalagem fechada, escultura de barro intacta.


Coisas inteiras, unidades perfeitas.


Um cubo mágico prestes a formar seus lados. Terminou...


Contemplar a inocente lua-cheia.


A quarta estrofe do soneto, o todo, o corpo, o esquerdo junto ao direito.


Em equilíbrio eu danço ao som das trombetas.


Preenchida de vazio, renasço pra viver em liberdade cada perfil de minha única face.

sábado, 4 de setembro de 2010

o sol do meio-dia

hora do almoço, do café da manhã em domingo preguiçoso.
hora do calor penetrar a pele, de me despir de algumas vestes.
hora de brincar na sombra, de namorar no mar.
hora de se molhar, de beber agua, de beijar.
no sol do meio-dia tomei sorvete de melancia.
no sol do meio-dia toquei em você e sua pele ardia.
no sol do meio-dia o ar estava seco, a garganta doía.
no sol do meio-dia fiz um pedido pro um Deus do Egito.
Pedi um abraço pra aquecer o frio que, mesmo ao sol, sinto.

QUANDO

Te enviei uma cartinha por e-mail.
Quando? Uma cartinha molhada de lágrimas,
estava tristinha nesse quando que já não é.
Hoje quando agora, estou mais ensolarada,
ainda um quando disfarçando a cara amarrada
com um pouco em quando de sorrisos amarelos.
Quando em vez alaranjados.
Quando já bem avermelhados,
ao escrever nesse quando pra você.
Quando você vem me ver?

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

contrassenso

Seria melhor escrever sem piedade.
Quantas palavras brandas procuro e acho
nas frases cordiais dos encontros banais.
Melhor ser extrema, forte, certeira.
Dizer errado a vontade verdadeira.
A forma torta do grito seco da fome hostil.
Que cega maltrata as regras e dilacera.
Arrepende a mente, o corpo ressente.
Lamentavelmente foi o cio da boca
o contrassenso da pele muda que resmunga.
Se eu escrever que sussura a mentira agora,
estou a dizer que urra. E que o desejo aflora.