domingo, 21 de agosto de 2011

A Carta Crua | Prometido e Pressentido.

Como estão eles agora?


Eles quem?


O homem ganhou um fardo pesado, teve de olhar pro passado e ver o prato cuspido onde um dia ele havia comido?
A mulher ganhou firmeza nos braços, atravessou o rio à nado, chegou na outra margem cheia de novidades?
Como estão eles agora?


Eles quem?


O homem está olhando para atrás e a mulher está olhando para frente?
Ele prepara sua mudança e ela sente, pressente, intui e conclui?


Há pouca luz. Amanhã quando amanhecer, ele verá com mais clareza, ainda não sabe o que fazer com tamanha tristeza.
Há pouca luz. Amanhã quando amanhecer, ela verá no mesmo céu azul do dia, uma lua nova, aguardando o sol poente, para discretamente lhe trazer alegria.


Um bom dia.
Para ele o dia termina e para ela o dia começa.
Um mesmo dia para duas promessas.





sábado, 13 de agosto de 2011

A Carta Crua | Empreitada

Pense em algo novo.
Insista e pense de novo.
Sabe fazer algo novo?
Sabes nada!


Pegue suas ferramentas e construa uma estrutura diferente.
Experimente, seja persistente.
Sabe ser diferente?
Sabes nada!


Estou a dias dormindo sobre o fim, a novidade e a transformação.
Que desafiadora missão...
Quero transformar o vinho em pão.
Quero transformar a água em poção mágica.
Não tenho as essências necessárias.
Ou tenho e estou com medo, ou tenho e desconheço, ou tenho e não sei se ofereço.
Oferecer a quem?
Observe o cardápio, há de tudo neste solo, neste lago, nesta terra, neste jarro.
Plantei e pesquei, Colhi e servi.
Querem mais?
Lá vou eu abastecer de vida a seca.
Lá vou eu abastecer de sonho a consciência.
Mudar a forma, talvez reciclar.
Aproveitar o resto, desconstruir e ter como base o teto.
Se botar o telhado à baixo, inverto.
Se botar o chão à cima, subverto.
Então com a permissão e com a colaboração dos subversivos, inicio meu projeto arquitetônico.
Amanhã farei algo novo pra mim.
Farei o quê? Não sei.
A novidade está em deixar de pensar, em relaxar e parar de me importar.
O importante agora é botar pra quebrar.
Seja concertando, restaurando ou reformando; a desordem, a bagunça e a poeira farão parte do contrato com a empreiteira.
Pedra, pedra, pedreira. 








segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A Carta Crua | Sair Pra Trabalhar!

A melhor saída:
Crer na força da minha vontade.
Crer que, movida pela paz infinita, eu posso, eu mereço, eu tenho a proteção que desejo.
Medo? 
Sim, desconfiança.
Muita sabedoria pra pouca demanda.
A melhor saída:
Aproveitar o tempo que tenho pra sonhar.
Conquistar outro lugar.
Recompensa sobre a mesa, aí está o meu alimento, é o que recebo depois de me ter entregue em oferenda.
Dou meu corpo, meu gozo e minha crença.
Dou minha nudez, meu suor, minha obediência.
Dou meu ar boca a boca, minha água em lágrimas, meu sexo em brasa, minha terra encharcada.
Dou e não recebo, não agora, não neste dia, nesta hora.
Não recebo o suficiente para sustentar meu corpo carente, minha fome de anos.
O que tenho pra hoje, é pouco pro tamanho do meu corpo.
O que tenho pra hoje, reparto ao meio, mesmo que pouco, ofereço a metade deste pouco todo.


Ofereço aos famintos a metade da parte que me foi dada.
Fico com minha fome.
Senti vontade de desistir...mas não vou morrer de fome, de fome de não.
Tenho fome de VIVER!
Com licença, preciso me levantar, me vestir e sair pra trabalhar.
Fui...

domingo, 24 de julho de 2011

Carta Crua para Keila Redondo | DESMASCARADA

Aleluia, Aleluia, Aleluia!!!
Sua moradia, um casulo, pequenos aposentos para grandes recolhimentos.
Aconchego. 
Casa, comida, roupa lavada.
Crisálida. 
Chave.
Escada. 
É bom poder contratar uma empregada.
Gerar emprego, ser camarada, ter mais tempo, ser dedicada ao próprio empreendimento.
Para tal investimento, aplicou seus recursos no resgate do assunto silenciado.
Um assunto que ficou por tanto tempo amordaçado, de tão assustado, começou a balbuciar palavras desordenadas e procurou aos poucos formular uma frase inteira, palavras cruzadas na busca de serem reveladas.
Uma dica, uma pergunta, uma saída?
Ficará remoendo o assunto para que o um novo tema fortaleça sua questão.
Aplicará seu aprendizado de imersão no desconfortável convívio com o incompatível, em divertimento e riso.
A temática do feminino transformada em graça e piada, em canção debochada, em didática representação, na epopeia da heroica reconstrução.
Depois de calada, virá a fala multiplicada, depois de quase esquecida, virá a rememorada imitação da vida.
Palmas, palmas, sons dos aplausos celebrando a vitória sobre sua própria máscara desencaixada, a máscara não servia na atriz. Difícil exercício de improviso, atuar com uma máscara emprestada. Fim do ridículo espetáculo. Máscara derrotada, atriz com a face exposta, livre para vestir sua identidade, para ser uma nova personagem.
E lá está ela sentada na cadeira da escritora, na cadeira da diretora, na cadeira do restaurante, na cadeira da praia, na cadeira de balanço lendo histórias para seu filho.
Uma pausa, para olhar para o filho.
Para o filho, a máscara da mãe sempre lhe caiu bem, para o filho, ela sempre esteve compatível, para o filho, a vida sempre imitou sua arte e sua arte sempre imitou sua vida. Para o filho, todas as escolhas foram boas, todas as tentativas foram dignas, todas as atitudes coerentes com seu amor prudente.
O filho foi gerado no equilíbrio do sonho bem aventurado. Aleluia! Aleluia! Aleluia!
Ela está sentada na cadeira de sua casa, trabalhando, estudando, aperfeiçoando seu artesanato, projetando um futuro que já se desenhou na vontade, no desejo e na coragem de mudar.
Mãe e filho caminham à beira mar...em frente, pisando e marcando na areia o tempo presente.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A Carta Crua | UNIDADE

Para os pés frios, um escalda pés...
Sou o bem que faço pra mim, gosto de ser amável.
Para cada mal-estar que encontro, abro uma sacola, retiro uma bola, começo a jogar.
Boliche, ping pong, golf ou bilhar?
Dois ou par?
Um ou ímpar?
Quando eu não estou é porque alguém me chamou pra conversar.
Eu vou, mas volto já. 
As conversas liberam as palavras, que depois de despejadas, são calmamente separadas.
As que foram ditas das que foram rezadas, as que foram traduzidas das que foram mal interpretadas.
Novamente a sacola: frutas, iscas, lanternas, trilhas.
Brincar de andar, meus passos são dados por uma perna que já foi e por outra que ainda está por vir, e entre uma perna e outra tem uma perna oca que, sem ser perna, misteriosamente caminha.
Rabo de gato.
Pênis de cachorro que lambe o próprio saco.
Cinco ou quatro?
Um no centro do quadrado ou o quadrado com o um no centro elevado?
Ele está no meio de nós e sobre nós: "Corações ao alto!"
Confiar pra poder amar.
Amar pra presenciar.
Um ótimo caminhar de volta ao lar.
Passo e ando, passeado...

quinta-feira, 30 de junho de 2011

A Carta Crua 2 º Parte | AS PRÓXIMAS PRIMAVERAS

Vou direto ao assunto.


É com ternura que minha voz grave se cala para dar passagem a sonora suavidade.
Solto um som agudo, limpo, puro... 
Recolho os gritos, solto os sussurros, guardo os urros e faço andar sobre as águas minhas delicadas palavras.
Que bom que posso ser forte e ao mesmo tempo flor ao vento, que bom que a força do ferro me gruda de novo no imã da terra e que ainda quero ser matéria, antes de pensar em ser, um dia, eterna.
Ao me reconhecer guia de mim mesma, me fui apresentada como uma linda estrela dourada, muito iluminada, clara e ponderada. Olhei-me e demorei para me adaptar a essa forma, pois estava tão acostumada a fúria, ao golpe, ao ter de fazer na marra, a minha construção diária, da fortaleza em torno de minha aldeia.
Achei difícil cantar à capela uma canção tão singela, pensei ter me esquecido das notas altas, pensei, elas não pertencerem mais a minha gruta úmida, que de tão profunda, nela, não se ouviam mais os agudos cristais, estavam tão suspensos que, ao serem tocados pelos morcegos, vibravam em sons distantes, distantes do meu registro do possível. 
Lembrei-me que é possível atingir, em mim, a altura dos anjos que sobrevoam as capelas.
Que é possível atingir, em mim, o badalar dos sinos, para que eu possa ser intensa sem jamais precisar ser violenta.  
Sigo a mim mesma, não por obediência, mas por adoração.
Adoro ESSA que está hoje botando à baixo os muros e plantando, no inverno, as cercas vivas, ciente de que nas próximas primaveras, elas darão flores lindas, perfumadas, coloridas.
Feliz Aniversário! Caríssima Adriana Azenha.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

A Carta Crua 1º Parte | O LOGOS VEIO ME VISITAR.

Vou libertar os desejos, vou soltar os pensamentos.
Quer pensar? Quer querer? Quer desejar? 
Está liberado qualquer caminho surpreendente que a mente em um lapso percorra.
Por mais que doa, siga sorridente, até que o caminho se modifique sozinho e talvez completamente.
Num só trajeto: memória, imagem de dor, uma cena de horror, uma fotonovela, um segredo, uma fila de espera.
Não reprima, não espante o pensamento, deixe ele se manifestar por inteiro.
Se ele for provocador, perturbador, deixe-o vir, se concluir. Deixe ele saber, que quem manda é você.
Deixe ele se irritar com a pouca atenção que você lhe dá, fique alheia as suas caras feias, sua língua de fora, suas bunda rebolante de pensamento infantil, deixe ele se cansar do ridículo e se apresentar novamente com cores mais atraentes. Os desejos são seus, todos seus. Pense o que quiser, dê corda à ele, deixe ele falar, ele vai se atrapalhar, vai se perder, se contradizer, vai adormecer e deixar você sonhar... e se, até em sonho, ele voltar pra tagarelar, ouça, dê ouvidos, deixe-o falar, ele pode se revelar, manifestar uma face desconhecida, oferecer uma contrapartida, vai se obrigar a ser inovador e pensar em algo nunca antes pensado.
Deixe ele pra lá se quiser deixar, deixe ele lhe ocupar se quiser ver onde vai dar.
Sem aborrecimentos, fique em paz com seus pensamentos, os belos, os feios, os caretas, os ousados, os perversos, os delicados, qualquer um, se for pensado até o limite, pode se transformar em ato livre, em fazer autêntico, em verdade. Deixe sempre as portas abertas para que os desejos entrem, para que os pensamentos saiam, nada pode ficar aprisionado e em seguida ver-se transformado em gesto bruto, em voz áspera, em expressão transtornada. Nada, nada está proibido, de agora em diante, querências, desejos e pensamentos passeiam sem restrições para serem espontaneamente traduzidos em livres e sinceras ações.
Eis a presença do Logos na minha vida, presença muito bem-vinda!