terça-feira, 15 de maio de 2012

O Miolo da Missiva | Quando a obra escolhe seus criadores

Vídeo do espetáculo teatral O Miolo da Missiva
em temporada na Oficina Cultural Oswald de Andrade
outubro e novembro de 2011.


 A EXPERIÊNCIA CONTINUA, ACOMPANHEM O BLOG:
Os textos de O Miolo da Missiva, A Carta Crua e a Carta do Corpo.



domingo, 22 de abril de 2012

a Carta do Corpo | ASCENSÃO EM 21 DE ABRIL DE 2012


Escolheram-se: a Mulher da língua afiada na justa medida da palavra, o Mestre dos corpos e porta voz das muitas falas, a Senhora do carvão com seus livros na mão e a Saia Rodada de tom grave que girava com profunda austeridade.
A ascensão estava anunciada.


Sobre a Mulher da língua afiada

Ela fez uma festa em um lindo palacete construído para ser inaugurado no último dia do seu reinado.
Todos os presentes já sabiam que ela subiria a íngreme escada de ferro.
A vermelha escadaria.
Então fizeram fila para ouvirem as suas palavras de despedida.
Ela foi homenageada com muitas honrarias, com discursos, danças, canções e poesias.
Ela provocou o inesperado, riu e gargalhou com tudo que deu errado, ridicularizou o pudor, aplaudiu o fogo e pediu que vaiassem até que o fracasso enfim terminasse.
Ascendeu despedindo-se da matéria. Ela doou para leilão seus colares, suas pulseiras, seus anéis. Leiloou sua voz. Deu de presente seu corpo e seu coração.
Deixou todo o barulho dos seus gritos, deixou seu nariz de palhaço, deixou sua expressão livre.
Sua língua afiada virou tinta, tecido, plástico, ferro, madeira. 
Sua língua afiada virou teatro, dança, cinema.
Sua língua afiada virou arte e escorre pelas paredes verdes de seu palacete.
Quem quiser ouvir agora a justa medida das suas palavras, terá que ser livre o bastante para desfilar em praça pública de maiô, com a bunda suja de cocô e com a merda a escorrer pelas pernas.
Terá que ser livre o bastante para se expor sem temer o vexame.
Terá que ser livre, minimamente livre, para fazer da existência uma experiência VERDADEIRA.



Sobre o Mestre dos corpos.

Ele riu do esquecimento para não virar ressentimento.
Poderia lamentar, mas preferiu trabalhar.
Ascendeu para um novo dia e sabiamente fez o que já fazia.
Ele sabe que o que mudou foi a qualidade da hora, mas que o tempo continua sendo o mesmo.



Sobre a Senhora do carvão.

quero em sonho ver tua mão pintada de carvão sobre minha face pálida.
quero te emprestar minha caneta para escreveres nas minhas costas as palavras que mais gostas.
por que nas costas?
para que eu tenha que pedir aos outros que leiam em voz alta.
quero que os outros leiam onde meus olhos não alcançam.



Sobre a Saia Rodada de voz grave.

Um trono nunca poderá ficar vazio.
...
Então disse uma sábia mulher do povo:
"Não tenho inveja do seu poder porque eu tenho o meu"
Seja bem-vindo o novo PODER.

Que a ascensão seja para todos!!!

segunda-feira, 2 de abril de 2012

a Carta do Corpo | o punho e a apunhalada

Todas prontas para o passeio.


O Miolo da Missiva emprestou palavras ao corpo.
E com os nossos olhares atentos ao que o corpo construiu, vamos desconstruir e refazer o caminho.
Que prazer jogar com "Elas".
Juntas formamos a seguinte frase:

Temos os joelhos levemente flexionados, um pescoço interessado, os braços, como asas, nos fazem flutuar sobre as águas, nossos dedos das mãos tocam a língua, dedos umedecidos viram as páginas dos livros, nossas pernas são fortes como as de uma égua, cavalgamos livremente rumo ao nosso fantástico inconsciente.

Joelhos, pescoço, braços, dedos das mãos, língua e pernas...

Fernanda Nocam por Viviane Fracari
Eremita, Temperança, Papisa, Carro.

As mulheres são protagonistas das nossas pesquisas.
"Elas".
Esta carta de hoje dedico as mais velhas, as pacientes, as sábias, as que foram encorajadas a cavalgarem para trás, a cavalgarem para dentro, para a casa antiga, para a velha Vila das Meninas.

Só as mais velhas têm memórias tão longínquas, só Elas lembram de coisas esquecidas.

Às vezes em sonhos são transportadas para suas mais escuras moradas, cavernas, grutas, garagens cheias de óleo, galpões vazios, terrenos baldios. Meninas jamais deveriam transitar por espaços que não fossem arejados, iluminados, ensolarados.

O carro de passeio pode nos levar ao passado, ele pode ser uma carruagem que nos conduz pelas linhas da palma da mão. 

Somos passageiras numa viagem sem destino?

O que diria a cigana ao olhar nossas mãos, ao ler nossas cartas?

Ela diria: “Teu corpo é tua casa, se teu punho estiver dolorido, experimente bater na porta, talvez esteja a doer tua vontade de bater, talvez esteja a doer tua vontade de entrar sem bater, talvez esteja a doer, pois já é chegada a hora de soltar a corda, de parar de segurar com tanta força as mãos do teu protetor, solta e cai, solta e vai, solta, porque o que seguras já não existe mais. Entra na tua casa, tu vais subir as escadas, vais ver as migalhas sobre a cama, vai ver que aquele que está lá embaixo na sala é o mesmo que está lá encima nos quartos, são todos o mesmo retrato, todos não estão mais ao seu lado, todos te abandonaram, ficaste sozinha na tua casinha, teu corpo refeito, perfeito, saudável...  teu corpo te diz através do espelho que essa mulher que está aí fora é mesma que mora aí dentro. Se cuidares deste templo terás uma deusa no altar do teu peito"

Bons presságios...

Só as mais velhas podem entender a previsão do passado, pois o futuro é o passado que ainda não foi revisitado. Ainda é tempo de passear pelo futuro. Sejam bem-vindas as meninas das MISSIVAS!


terça-feira, 6 de março de 2012

a Carta do Corpo | Quero brincar de pular cordas vocais

PERDI A VOZ
FOI O CALOR
A SECURA...
SOL SOL SOL
E ESSA MINHA VOZ, QUE TAMBÉM É DO CORPO.
QUE É A MAIS AUDÍVEL PALAVRA DO MEU CORPO
QUER AGORA PARAR DE FALAR PARA VER OUTRAS PALAVRAS MUDAS COMEÇAREM A  SE MOVIMENTAR
FALAR COM OS OLHOS, COM AS MÃOS, COM OS DEDOS,
E MESMO QUE SEJA IMÓVEL,  PODER FALAR COM O CORPO EM SILÊNCIO
EXPRESSÃO DO CORPO
DA GARGANTA DO CORPO QUE FICOU VERMELHA
PUDE SENTIR ARDER O SOL DA GARGANTA
ÁGUA ÁGUA ÁGUA
CHUVA CHUVA CHUVA PRA LAVAR A INFLAMADA VOZ
TEMPO
SILÊNCIO
OUVIR O CORPO
QUANTO BARULHO DENTRO E FORA DA MINHA MASSA CORPÓREA
GRITOS POR TODO O CENTRO EM DESALINHO
FORAM DIAS EM BUSCA DE UM EQUILÍBRIO
NO CENTRO A CABEÇA
NO MEIO O OLHO TERCEIRO
NO CENTRO O NARIZ A INSPIRAR O FELIZ , A EXPIRAR O INFELIZ, NUM CICLO CONTÍNUO.
NO MEIO A BOCA CALADA ENGOLE, COSPE, BOCEJA, SALIVA, PROVA O GOSTO DA VIDA
NO CENTRO O PESCOÇO, O PLEXO, O ABDÔMEN, O UMBIGO, A COLUNA, VÉRTEBRA POR VÉRTEBRA CONSTRUINDO MEU EDIFÍCIO.


Foto de Patricia Bruni
NO MEIO MEU SEXO ANTES DESENCAIXADO, AGORA  BEM COLOCADO, SE EXPANDE PARA O INFINITO
POSSO ANDAR A FLUTUAR
POSSO VOAR AO CAMINHAR
POSSO DESCOLAR DOS OSSOS
POSSO IR
POSSO VOLTAR
TIVE QUE DEIXAR MEU  SOL SE PÔR PARA SENTIR DIMINUIR O CALOR
MINHA VOZ BAIXA, AIRADA.
VOZ NOTURNA, VOZ DA MADRUGADA.
MINHA VOZ ENLUARADA
LUA LUA LUA
MINHA GARGANTA ACEITA A LUZ FRIA QUE NELA BRILHA
FEMININA A SUSSURRAR E SUSPIRAR
VENTRE EM DANÇA
QUERO VER IRRADIAR DO CENTRO MINHAS FLECHAS, MINHAS LANÇAS.
MEUS BRAÇOS, MEUS PÉS, MINHAS PERNAS, MEUS CABELOS, MEUS SALTOS, MEUS GIROS, EU MOVIMENTANDO O VENTO, PARA LÁ E PARA CÁ. SOPRAR...


MINHA VOZ LUNAR NÃO FALA, DANÇA, SÓ É AUDÍVEL SE FOR MÚSICA AOS OUVIDOS.
SINFONIA DAS MINHAS EMOÇÕES, TODOS OS SONS DO TAMBOR
MEU CORAÇÃO
MINHAS VEIAS
MEU PULSO
SOU MÚSICA NA MINHA PRÓPRIA NATUREZA
NÃO CANTO COM MINHA VOZ
CANTO COM MINHA PELE
MINHA PELE É MEU CANTO
QUANDO ME ABRAÇO OUÇO A CANÇÃO MAIS LINDA
ESSA MÚSICA QUE ME ARREPIA OS PELOS
EU OUÇO
E QUERO QUE UM DIA TODOS QUE  CHEGAREM  PERTO
POSSAM OUVIR  OS MEUS AFETOS.
A CARTA DO CORPO ESTÁ ABERTA
A PRIMEIRA SEQUÊNCIA É ESSA:
O SOL , A TEMPERANÇA,  A LUA,  O EREMITA.
O CORPO GUARDA UMA VELHA HISTÓRIA
COMEÇO A CONTAR AGORA
COM AS PALAVRAS GUARDADAS NAS GAVETAS DOS MEUS JOELHOS, DOS MEUS TORNOZELOS.
SÃO PALAVRAS ENGAVETADAS NA MINHA VIRILHA E NA MINHA OMOPLATA.
ESTAVAM ARQUIVADAS, VOU AGORA PUBLICÁ-LAS
QUEM QUISER QUE ME ACOMPANHE.
SEREI ETERNAMENTE GRATA.


*Sob a direção artística e metafísica de Kabila Aruanda.






domingo, 4 de dezembro de 2011

Recolhimento sob a proteção dos Querubins


O Miolo da Missiva recolhe suas palavras por um período indeterminado.
A Cartas Cruas se encerram.
O que virá, ainda é mistério.


Os Qrerubins ciudarão da Casa e avisarão a hora certa da retomada.


Silêncio é a lição do ancião. Poucas palavras, sábias palavras, iluminação.
Para saber a hora de parar, precisei consultar a espada e as letras.
Nenhuma cabeça será cortada se as letras formarem a palavra secreta dentro de um jogo de forca. As crianças brincam de forca, de guilhotina, de cabeça que se arranca, se chuta, rola e depois se encaixa de volta no pescoço. Brinquedo de montar e desmontar, brinquedo de embaralhar e depois empilhar, brinquedo de ocultar, segredar e depois desvendar a palavra para que a forca não seja usada.


Foto de Vivi Fracari


A palavra.
Quantas Letras?
Quantas Vogais?
Quantas Consoantes?
Uma dica: a letra que inicia e a letra que terminna.
Qual Idioma?


Ou...
Não há Palavra.
É hora de brincar de SILÊNCIO.


Até Breve!






terça-feira, 29 de novembro de 2011

Cena escrita por Adriana Azenha para o encerramento da Oficina "A Prática do Teatro Autoral".



Personagens:



Mãe


Filho


Rádio


Homem


Avó


Pai








(Mãe e filho dentro do carro voltando da escola, a mãe está dirigindo, o filho está no banco detrás chupando o dedo, idade da mãe: 35, idade do filho: 5, trânsito lento. Sentada na frente da Mãe está a atriz que fará o Rádio, sempre que a Mãe tocar o nariz da atriz, ela deve improvisar a sonoriade do rádio, nada deve ser combinado, o Rádio só pode ser ligado/desligado pela Mãe ou pelo Filho).


Mãe: Tudo bem na escola hoje?


Filho: Tudo.


Mãe: Tem lição?


Filho: Tem.


Mãe: Comeu o lanchinho?


Filho: Comi.


Mãe: Comeu tudo? (olhando pelo espelho retrovisor) Tira o dedo da boca Júnior!


Filho: Eu to com fome.


Mãe: Já-já a gente chega em casa e vc come. Ta bom?


Filho: Tá chegando?


Mãe (pensando alto): Que merda esse trânsito! Olha lá o idiota fechando o cruzamento, caralho, puta que pariu, ninguém merece...


Filho: Mãe, não pode falar palavrão!!! "Idiota" é palavrão!!! Mãe você vai muito devagar, se fosse meu pai já tinha passado todo mundo, meu pai é mais rápido que você, ele corre mais, você é lerda mãe, eu tô com fome!


Mãe (procurando alguma coisa dentro da bolsa, acha uma bala, abre, divide no meio, come uma das metades, a outra ela entrega  pro filho): Toma! Pega aqui vai, come essa bala. Esse carro está esquisito, não to gostando... a direção está pesada, só me faltava ter furado um pneu... (ela para o carro, desce e vê o pneu furado, resmunga, balbuciando xingamentos, entra novamento no carro).


Filho: Que foi mãe?


Mãe: E agora? Eu não sei trocar pneu. Deixa eu ligar o pisca-alerta. Já sei! O triângulo, tenho que botar o triângulo.


Filho: Liga pro meu pai mãe, o pai sabe, o pai sabe trocar pneu, ele sabe, liga pra ele mãe, eu tô com fome.


Mãe: Fica quieto Júnior, deixa eu pensar, fica quieto e tira esse dedo da boca agora, tira, eu to mandando...


(Ela desce do carro, abre o porta-malas, pega o triângulo, coloca na pista.)



Filho (debruçado na janela): vai demorar mãe? Eu quero fazer xixi, já ligou pro meu pai?




Mãe (assustada): Sai dai Júnior, é perigoso, fecha essa janela, fica sentado quieto aí, não atrapalha!


Filho: Eu tô apertado!






(Ela volta pro carro, um homem numa moto estaciona e oferece ajuda).


Homem: Furou o pneu? A senhora precisa de ajuda?


Mãe: Pois é, furou, eu não sei usar o macaco, a chave de roda, essas coisas...


Homem: Eu troco pra senhora, onde está o macaco?


Filho: Que macaco? Liga pro pai, mãe! Pra que macaco, mãe?


Homem (para o filho): É o macaco robô mecânico, você não conhece?


Mãe: Júnior fica quietinho tá, o... (querendo apresentar o Homem para o filho) desculpa, eu não perguntei seu nome...


Homem: Fábio. E o seu?


Mãe: Eu sou Cibele (para Júnior) e esse é o Júnior, o Júnior vai esperar o Seu Fábio trocar o pneu pra gente. Né Júnior?


Homem: Deixa ele. Quer aprender a trocar pneu? Pede pro seu pai te ensinar, aí da próxima vez que a mamãe precisar vc troca pra ela, né?


Mãe: Ih... Não dá ideia...


(Enquanto o Homem troca o pneu, a Mãe se recorda de uma canção que aprendeu num acampamento quando ela era criança, começa a cantar para o filho com a intenção de descontrair e chamar a atenção, demonstrando graça e simpatia " O Jipe do Padre fez um furo no pneu...concertamos com cliclet..." essa cena deve ser improvisada pelos atores, sugerir um momento de aproximação entre eles, uma leve intimidade, todos se divertem muito, até que o pneu esteja finalmente trocado).


Homem: Prontinho, agora é só levar o step no borracheiro. E aí Júnior? E a fome? E o xixi? Passou?


Mãe: Olha, muito obrigada. Nem sei como agradecer?


Homem: Eu sei...


Mãe: O quê?


Homem: Um café, você me paga um café. Quando? Quando vc pode me pagar um café?


Filho: Eu quero um sorvete, mãe me paga um sorvete!


Mãe: Então me deixa seu telefone.


Homem: Meu cartão, fica com meu cartão. Então tchau Júnior, sua mãe vai lhe dar um sorvete, mas você tem que prometer que não vai mais chupar o dedo. Ou dedo, ou sorvete. Você escolhe!


Mãe: Tchau, prazer. Eu ligo então pra gente marcar o café.


Filho: Vem mãe, vamo embora, eu vou fazer xixi na calça.


(mãe entra no carro, liga o carro e retoma o percurso).


Mãe: Eu vou deixar vc na casa do seu pai, você dorme lá hoje, eu preciso ir atrás de um borracheiro. Sua vó faz uma sopa pra vc bem gostosa. De manhã eu passo lá e te pego, certo?



Filho: Por que o papai mora com a vovó?




Mãe: Deve ser porque a sopa dela é muito gostosa e porque eles fazem companhia um pro outro. A vovó não fica sozinha e nem o papai.(o filho adormece no banco detrás, a mãe liga o rádio, a atriz que faz o rádio deve improvisar, cantando uma canção, dando uma notícia ou qualquer outra situação do universo das rádios, ideia de movimento e deslocamento). Pronto, chegamos..., desce lá e toca a campanhia, enquanto eu termino de estacionar.




(O Filho ainda com sono, desce, toca a campainha, a avó sai, o pai sai logo atrás, todos conversam na calçada enfrente a casa da avó).


Avó: O que ouve?


Mãe: Desculpa Dna Antônia eu vir assim sem avisar.(para o pai) Oi Cássio, posso deixar o Júnior aqui hoje? Ele está com fome, o pneu do carro furou, eu peguei um puta trânsito, ele precisa fazer xixi...


Pai (para o filho): Entra lá filho, vai fazer xixi, vai... o papai já vai lá dar um banhão em você...


(o filho entra na casa da avó).


Avó: Tudo bem, deixa o menino aí, vai resolver tuas coisas, amanhã vc pega ele, num quer entrar um pouquinho, comer alguma coisa...


Mãe: Não Dna Antônia, obrigada, mas eu preciso ir. Ainda vou passar numa borracharia...


Pai: Você sabe onde tem borracheiro aberto essa hora? Não quer ficar aí e eu vou atrás disso pra vc? Não é melhor vc ir pra casa e de manhã vc resolve isso? Sei lá, agora, a essa hora, achar borracheiro aberto...


Mãe: Pode deixar, eu me viro, eu acho que eu sei onde tem um 24hs...e nem é tão tarde assim...


Filho: Vó! Eu já fui no banheiro, agora eu quero comer, o que tem pra comer vó? Pai, o Fábio falou pra vc me ensinar a trocar pneu, vc me ensina? Me ensina pai?


Pai (para mãe): Quem é Fábio? Que Fábio?


Mãe: Você não conhece...


Avó: Bom, então vai minha filha, quanto mais vc demorar pior, vamos entrar, não gosto de ficar de conversa essa hora na rua, é até perigoso, vai com Deus, qualquer coisa liga, tchau.


( Todos se despedem rapidamente, ela entra no carro e liga o Rádio, novamente a atriz/Rádio deve improvisar a sonoridade do rádio).




Mãe (Rindo, cantando e falando sozinha): É tudo culpa do Jipe do Padre. E agora? Eu ligo ou não ligo? (pega o cartão do Homem/Fábio, lê, pega o celular, o celular toca, ela se assusta, desliga o Rádio). Puta susto! (atende o celular) Alô, oi... oi filho... o sorvete? Ah tá, o sorvete... ah vc não chupou mais o dedo... ah sei, o Fábio... Sei.... ele falou né filho? Então... sei... Você escolheu o sorvete né? Então tá... pode deixar, depois que a mamãe concertar o pneu no borracheiro eu compro o sorvete, tá bom? Amanhã depois do almoço vc come de sobremesa, tá bom? Sei... de creme... sei... tá bom...beijo...te amo...tchau.




(Ela liga o Rádio e depois liga para o Homem).



Mãe (em tom de brincadeira, como se estivesse passando um trote): Alô, É da borracharia? Aqui quem fala é a freira amiga do padre, então, ele me passou seu contato, é à respeito de um chiclet, meu pneu furou e... sei... o sr concerta? (risos) Ah sei... onde? O quê? Se eu chupo dedo? Não, larguei faz tempo... Sorvete? Sim! Onde? Tô anotando... (risos).




(O Rádio segue ligado).


Black-out.

A Oficina "A Prática do Teatro Autoral" ocorreu no período de outubro à novembro de 2011 na  Oficina Cultural Oswald de Andrade, como parte do Projeto da Cia AZENHA DE TEATRO.


domingo, 20 de novembro de 2011

A Carta Crua | Minha mãe não sabe o que tem atrás da montanha. A montanha dela era outra.




Foto de Viviane Fracari

Eu conheço um caminho, li num livro, fiz uma viagem, conheci uma mulher, sei sobre uma lenda, já escrevi em um poema, trabalhei com uma pessoa, um amigo me contou, tem um filme que eu vi, já sofri de uma dor, me ofereceram uma fruta, sei uns passos dessa dança, já cantei essa canção, dirijo automóvel e até um caminhão, já desci nessa estação, entrei nesse museu, venho há anos neste parque, tinha uma árvore ali, cortaram, hoje tem outra bem pequena aqui, replantaram, eu acho. 


Terminei e comecei milhões de vezes, entre um sol e uma lua, entre uma porta e outra, entre um ano velho e um ano novo, fiz muitos inícios, vivi muitos fins, infinitos fins, términos intermináveis, couberam muitas tentativas dentro das horas, dos dias, dos anos velhos em que me renovo.

Só posso saber o quanto sei na medida do quanto ando.
Só posso saber o quanto sei na medida do quanto caio.
Só posso saber o quanto sei na medida do quanto me levanto.
Só posso saber o quanto sei na medida do quanto me lanço, me jogo, me ergo, me solto...

E para saber sobre o que não sei é preciso não querer saber, é preciso apenas saber o que alma curiosa pretende conhecer, é preciso apenas um corpo aventureiro com desejos simples e raros, desejos de alimento e gozo, de carinho e conforto, de movimento e silêncio harmonioso. E tudo isso, que também é pouco, só se sabe quando já não se é moço, quando já se pronunciaram as rugas, quando já se embranqueceu a fronte, quando já há uma promessa de velocidade média no ritmo da pressa.

Tenho um filho, já moço, um ex menino, um quase homem, um fazer-se humano dentro do tempo que nos amadurece. Esse filho, que ora cresce, ora se apavora com as cobranças do fim da infância, vai saber sobre não ser, vai conhecer um trauma, receber uma notícia, quebrar uma louça, tropeçar numa pedra, escorregar no molhado, vai se lembrar de um abraço, vai acordar de um sonho, vai comprar flores, vai escrever cartões, vai rasgar fotografias, vai queimar poesias. 

Vou aplaudir seu andar sobre a terra, seus buracos e crateras, suas areias à beira mar, suas rochas, suas montanhas íngremes, seus desertos áridos, suas casas, quantas forem, suas famílias, quantas, seus amigos, quantos, seus projetos, o quase, o desastre, o sucesso. Cada caminho tem seu dono, cada anjo seu guardado ser humano. Tem um anjo que guarda meu filho e que dá a bandeirada de largada desta corrida que começa acelerada e que termina num respirar profundo, num ganhar mais fôlego para desfrutar tudo que é aprendido, a matemática das contas, o português das broncas, a química dos corpos, a física dos astros, a biologia empírica, a filosofia, a arte e a magia... Filho de bruxa, bruxinho é...

Abracadabrasaramalé. Faz esse meu filho ser quem ele é!!!

http://www.youtube.com/watch?v=0q5kbMdw7Bk