sábado, 12 de outubro de 2013

A CARTA DA CASA | La vie en rose

Para Fernanda Justina.
Inspirado na Sequência: O ENFORCADO - A TORRE DA DESTRUIÇÃO - O ENAMORADO - O IMPERADOR.

Foto: Viviane Fracari
Quando chega o período de poda no meu jardim, delicadamente corto galhos.
São pernas, são braços...
Roseiras quase desaparecem, viram pequenos caules, quase nada de folhas.
Quase me esqueço que ali há roseira.
É importante que se lembre de avisar as crianças para que não brinquem no jardim, pois elas, num descuido, podem pisar sobre a roseira. Roseira sem rosa, também é roseira.
Geada, seca, granizo, queimada, chuva brava...
Pode não ser criança, nem enxada, nem trator. 
Pode ser que seja a ausência de vontade humana sobre o desejo de florir.
Pode ser um formigueiro a me consumir.
Pode ser uma praga.
Esperava pela poda, mas veio a peste.
Porém, no amor da terra pelos seus frutos, surgem crianças que plantam roseiras nos velhos jardins.
Surgem crianças e seus regadores.
Surgem minhocas no amor da terra pelos seus frutos.
Surgem braços, pernas, tronco de roseira nova.
Meu amor colheu uma rosa no jardim para entregá-la a mim.
Há o amor da terra pelos seus frutos e também o amor de seus frutos pelos que se dão inteiros aos seus amantes.
Pode vir a poda, pode vir a peste...
O amor não se submete.
Aceito a rosa que você me oferece.
Exalo o perfume da rosa, beijo tua boca.
Sabes enxergar a rosa que em mim mora, mesmo quando me encontro em estado de poda.

Com Amor,
Adriana Azenha.


Só para ilustrar...
http://www.youtube.com/watch?v=DUFYG1EHuEw


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A CARTA DA CASA | Linguaruda.

Texto inspirado na sequência: 
A Estrela - O Enamorado - O Enforcado - A Roda da Fortuna.
Para: Maria Alice Araujo de Almeida.

Minha intuição não falha.
Ouço pensamentos.
E o que penso acontece e se acontece eu já sabia.
E quando alguém cochicha, o rabo espicha.
E quando alguém reclama, o rabo inflama.
E flecha que não acerta o coração, acerta a bunda, tal qual uma injeção.
Então não é palpitação?
É de todo tipo, menos de coração.
...e gente dando palpite, isso tem de montão.
Cortei as línguas,
mais tarde nascerão de novo,
enquanto sangram mudas,
medito na vastidão profunda.
E Raimunda hoje é a solução,
porque não há palavra na rima do meu coração...
Quando as tagarelas línguas varrerem o céu da boca eu já terei descido pelas gargantas.
A língua não me alcança, saio na frente, chego antes, sou ligeira, vou, mas volto.
Minha intuição não falha!



Depois de uma volta completa rimo meu coração de poeta:
com pão, algum tostão e muita diversão.




Com Amor,
Adriana Azenha.


















segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A CARTA DA CASA | Didática


Inspirado na sequência: O Eremita - A Justiça - A Imperatriz - A Morte.
Para: Susana Gabriela da Silva.

Foto: Viviane Fracari
Hora de testar o conhecimento.
Gosto das questões de livre escolha, pois trazem consigo a mais confiante das alternativas:
NENHUMA DAS ANTERIORES.
Nem A, nem B, nem C, nem D.
Quando a pergunta é sobre o que aprendi, podem me testar à vontade.
Caso eu não saiba, faço a prova com direito à consulta.
Sei exatamente o capítulo do livro que contém a resposta.
E com a caneta na mão direita marco um X na resposta correta.
Todas as minhas respostas estão certas.
Estou aprovada no exame.
Passei de ano sem ficar para recuperação.
Nada precisa ser recuperado...
O ano letivo acabou para um bom entendedor.
Fim, férias...
Curiosa para ver chegarem os novos conteúdos.
Os livros do ano passado serão doados, preciso abrir espaço nos meus armários.

Com Amor,
Adriana Azenha.



domingo, 29 de setembro de 2013

A CARTA DA CASA | Encrenca!

Inspirado na sequência: O Enforcado - A Justiça - A Morte - O Papa.
Para: Carolina Yoshie Kondo

Foto: Viviane Fracari
O elevador parou entre um andar e outro.
Encrencou!!!
Nem subir, nem descer. Parar no ar...
Nem sair, nem entrar. Simplesmente ficar quieta até o técnico chegar.
Sem pânico, sem chilique, sem gritos de desespero.
Abro a bolsa, pego o celular e aviso ao compromisso que vou me atrasar.
O motivo?
Ora! Por motivo de força maior.
Maior que minha vontade, que meu dever, que minha obrigação.
Quero sair, mas já que tenho que esperar, espero com profunda tranquilidade.
O técnico chega com sua chave de fenda.
Ele sabe o que fazer.
Dou a ele a oportunidade de me socorrer.
E para que o herói apareça, preciso ser um pouco prisioneira.
Hora de não fazer nada, hora de ser resgatada.
Lá fora ocorreu um movimento intenso enquanto eu fiquei em silêncio.
Minha pausa é o motivo da urgência alheia.
O elevador estava velho, vai ser trocado.
Quem parou foi o elevador...
E quando o novo for instalado, vou passear de andar em andar, num lindo elevador, novinho e de última geração.
Vou subir do térreo até o infinito e arranhar céu.








sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A CARTA DA CASA | Primavera Enluarada.


Inspirado na sequência:
O Carro - A Força - O Imperador - A Lua.

Para: Sheila Granja Prada.

Pagou a passagem e entrou no ônibus.
Da janela, se divertia ao ver as placas: indicações, setas, destinos.
O bom da viagem é viajar.
Então pensou:
O destino é certo, mas os encontros...
Tão certo é o preço da passagem, o local do embarque, o assento, o horário da partida e da chegada, a distância, o trajeto.
E aparentemente certo: o propósito.
A hospedagem garantida, a comida, a bebida.
O roteiro programado.
Foi tudo de propósito?
Os encontros...
O que não ficou acertado, certo está.


É rápido, num piscar de olhos, o cão avança, o exército invade.
É rápido, num piscar de olhos, o cão se deita, o exército bate em retirada.
É rápido, num piscar de olhos, a boca abre, os olhos fecham...
Tudo escuro.
Num piscar de olhos a lua nasce.
Beijo na boca, se não for de olhos fechados, simplesmente não é.
É quase, é pela metade, é mentira.
Sob a lua o cão uiva.
Sob a lua o exército se camufla.
Sob lua, cão pode ser gente e o exército pode estar carente de paz...
Cão quer afago, exército quer trégua...
Sob a Lua que se fez em Vênus floresce Nossa Primavera.

Com Amor,

Adriana Azenha.


sábado, 17 de agosto de 2013

POSTAIS | Emenda - Para Eduardo Bartolomeu

Que menino bem arrumado.
Sim, ele está bem arrumado!!!
Sem as calças. Quer sair por aí só de cueca.
Sua tia não deixa, sua irmã morre de vergonha.
Então, ele se tranca no quarto, faz birra, reclama.
Quer sair com o casaco novo e com a cueca, que também é nova, e é bela.
Vai sair escondido pela janela.
A janela é alta, a casa é assobradada.
Ele pula, se esborracha no chão, quebra a jardineira, bate a cabeça, o galo canta e assusta a vizinhança.
Prende o choro e solta os cachorros.
Rasgou a cueca, vai remendar.
Vai colar os cacos da jardineira de barro e replantar as camélias.
Vai se desculpar com os vizinhos pelos latidos vulgares de sua fúria.
Vai colocar cubos de gelo na crista do galo.
Vai baixar a crista.
Vai passar os dias se ocupando em restaurar o impulso de pular.
Depois de seu resguardo, veste novamente o casaco, olha-se no espelho e se espanta ao ver os pelos crescidos em suas pernas.
O remendo da cueca é cicatriz na virilha que o tempo esconde por debaixo dos pelos.
Que homem bem arrumado.
Veste as calças, pede a benção da tia, abraça a irmã e sai pela porta da frente.
Ele tem um encontro com sua namorada e não quer chegar atrasado.

TEXTO INSPIRADO NA SEQUÊNCIA: O ENAMORADO - A CASA DE DEUS - A TEMPERANÇA - O CARRO.


POSTAIS | Palatável - Para Jany Canela


Tão interessada nas receitas.
Lia todas.
Sabia-as de cor.
A quantidade de xícaras, as medidas, colheres de sopa ou de café.
Quantos ovos...
O tempo de preparo.
O ponto.
Sabia de cor o ponto. 
Nunca tinha feito nenhum bolo, mas conhecia as receitas na ponta de língua.
Belo dia resolveu ir para cozinha, vestiu o avental e colocou em prática seu vasto conhecimento.
Queimou bolos, cortou o dedo, explodiu a panela de pressão, quebrou pratos, desandou massas.
E de tanto desandar de lá para cá pela cozinha, aprendeu a cozinhar.
Passou a criar, inventou sabores e subverteu os procedimentos.
Pensou em escrever seu próprio livro de receitas, mas se desinteressou, dispensou...
Achou melhor compartilhar seu saber à mesa.
Convidou os vizinhos, os parentes, os amigos e também uns desconhecidos.
Pouco a pouco sua comida caiu no agrado de todos.
Caiu na ponta da língua, nos lábios, no céu da boca, na boca do estômago.
Satisfeita em dividir nos pratos as quantidades justas de sua fartura, releu as receitas. 
E foi como se nunca as tivesse lido.
Pareciam-lhe inéditas.

TEXTO INSPIRADO NA SEQUÊNCIA: PAPISA - MAGO - IMPERATRIZ - JUSTIÇA.