segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A CARTA DA CASA | Didática


Inspirado na sequência: O Eremita - A Justiça - A Imperatriz - A Morte.
Para: Susana Gabriela da Silva.

Foto: Viviane Fracari
Hora de testar o conhecimento.
Gosto das questões de livre escolha, pois trazem consigo a mais confiante das alternativas:
NENHUMA DAS ANTERIORES.
Nem A, nem B, nem C, nem D.
Quando a pergunta é sobre o que aprendi, podem me testar à vontade.
Caso eu não saiba, faço a prova com direito à consulta.
Sei exatamente o capítulo do livro que contém a resposta.
E com a caneta na mão direita marco um X na resposta correta.
Todas as minhas respostas estão certas.
Estou aprovada no exame.
Passei de ano sem ficar para recuperação.
Nada precisa ser recuperado...
O ano letivo acabou para um bom entendedor.
Fim, férias...
Curiosa para ver chegarem os novos conteúdos.
Os livros do ano passado serão doados, preciso abrir espaço nos meus armários.

Com Amor,
Adriana Azenha.



domingo, 29 de setembro de 2013

A CARTA DA CASA | Encrenca!

Inspirado na sequência: O Enforcado - A Justiça - A Morte - O Papa.
Para: Carolina Yoshie Kondo

Foto: Viviane Fracari
O elevador parou entre um andar e outro.
Encrencou!!!
Nem subir, nem descer. Parar no ar...
Nem sair, nem entrar. Simplesmente ficar quieta até o técnico chegar.
Sem pânico, sem chilique, sem gritos de desespero.
Abro a bolsa, pego o celular e aviso ao compromisso que vou me atrasar.
O motivo?
Ora! Por motivo de força maior.
Maior que minha vontade, que meu dever, que minha obrigação.
Quero sair, mas já que tenho que esperar, espero com profunda tranquilidade.
O técnico chega com sua chave de fenda.
Ele sabe o que fazer.
Dou a ele a oportunidade de me socorrer.
E para que o herói apareça, preciso ser um pouco prisioneira.
Hora de não fazer nada, hora de ser resgatada.
Lá fora ocorreu um movimento intenso enquanto eu fiquei em silêncio.
Minha pausa é o motivo da urgência alheia.
O elevador estava velho, vai ser trocado.
Quem parou foi o elevador...
E quando o novo for instalado, vou passear de andar em andar, num lindo elevador, novinho e de última geração.
Vou subir do térreo até o infinito e arranhar céu.








sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A CARTA DA CASA | Primavera Enluarada.


Inspirado na sequência:
O Carro - A Força - O Imperador - A Lua.

Para: Sheila Granja Prada.

Pagou a passagem e entrou no ônibus.
Da janela, se divertia ao ver as placas: indicações, setas, destinos.
O bom da viagem é viajar.
Então pensou:
O destino é certo, mas os encontros...
Tão certo é o preço da passagem, o local do embarque, o assento, o horário da partida e da chegada, a distância, o trajeto.
E aparentemente certo: o propósito.
A hospedagem garantida, a comida, a bebida.
O roteiro programado.
Foi tudo de propósito?
Os encontros...
O que não ficou acertado, certo está.


É rápido, num piscar de olhos, o cão avança, o exército invade.
É rápido, num piscar de olhos, o cão se deita, o exército bate em retirada.
É rápido, num piscar de olhos, a boca abre, os olhos fecham...
Tudo escuro.
Num piscar de olhos a lua nasce.
Beijo na boca, se não for de olhos fechados, simplesmente não é.
É quase, é pela metade, é mentira.
Sob a lua o cão uiva.
Sob a lua o exército se camufla.
Sob lua, cão pode ser gente e o exército pode estar carente de paz...
Cão quer afago, exército quer trégua...
Sob a Lua que se fez em Vênus floresce Nossa Primavera.

Com Amor,

Adriana Azenha.


sábado, 17 de agosto de 2013

POSTAIS | Emenda - Para Eduardo Bartolomeu

Que menino bem arrumado.
Sim, ele está bem arrumado!!!
Sem as calças. Quer sair por aí só de cueca.
Sua tia não deixa, sua irmã morre de vergonha.
Então, ele se tranca no quarto, faz birra, reclama.
Quer sair com o casaco novo e com a cueca, que também é nova, e é bela.
Vai sair escondido pela janela.
A janela é alta, a casa é assobradada.
Ele pula, se esborracha no chão, quebra a jardineira, bate a cabeça, o galo canta e assusta a vizinhança.
Prende o choro e solta os cachorros.
Rasgou a cueca, vai remendar.
Vai colar os cacos da jardineira de barro e replantar as camélias.
Vai se desculpar com os vizinhos pelos latidos vulgares de sua fúria.
Vai colocar cubos de gelo na crista do galo.
Vai baixar a crista.
Vai passar os dias se ocupando em restaurar o impulso de pular.
Depois de seu resguardo, veste novamente o casaco, olha-se no espelho e se espanta ao ver os pelos crescidos em suas pernas.
O remendo da cueca é cicatriz na virilha que o tempo esconde por debaixo dos pelos.
Que homem bem arrumado.
Veste as calças, pede a benção da tia, abraça a irmã e sai pela porta da frente.
Ele tem um encontro com sua namorada e não quer chegar atrasado.

TEXTO INSPIRADO NA SEQUÊNCIA: O ENAMORADO - A CASA DE DEUS - A TEMPERANÇA - O CARRO.


POSTAIS | Palatável - Para Jany Canela


Tão interessada nas receitas.
Lia todas.
Sabia-as de cor.
A quantidade de xícaras, as medidas, colheres de sopa ou de café.
Quantos ovos...
O tempo de preparo.
O ponto.
Sabia de cor o ponto. 
Nunca tinha feito nenhum bolo, mas conhecia as receitas na ponta de língua.
Belo dia resolveu ir para cozinha, vestiu o avental e colocou em prática seu vasto conhecimento.
Queimou bolos, cortou o dedo, explodiu a panela de pressão, quebrou pratos, desandou massas.
E de tanto desandar de lá para cá pela cozinha, aprendeu a cozinhar.
Passou a criar, inventou sabores e subverteu os procedimentos.
Pensou em escrever seu próprio livro de receitas, mas se desinteressou, dispensou...
Achou melhor compartilhar seu saber à mesa.
Convidou os vizinhos, os parentes, os amigos e também uns desconhecidos.
Pouco a pouco sua comida caiu no agrado de todos.
Caiu na ponta da língua, nos lábios, no céu da boca, na boca do estômago.
Satisfeita em dividir nos pratos as quantidades justas de sua fartura, releu as receitas. 
E foi como se nunca as tivesse lido.
Pareciam-lhe inéditas.

TEXTO INSPIRADO NA SEQUÊNCIA: PAPISA - MAGO - IMPERATRIZ - JUSTIÇA.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

A CARTA FINAL | O AMOR TEIMOSO

Quantas vezes as mulheres sonham com encontros solares.
Encontros às claras.
Verdades nas falas, sinceros olhares: como uma história da infância, uma fraqueza, um gesto desengonçado.
Um encontro ensolarado.
Mulheres sonham com pastéis na feira, com passeios no parque, com milho cozido na praia e sexo pela manhã com a cara bem amassada, o hálito comprometido, as vergonhas... e desvergonhas minutos depois.
Elas sonham...
Sonham com um sorriso rindo da piada sem graça, da tropicada na calçada, do tombo de bicicleta, da mancha de molho de macarrão no canto da boca.
Sonham com um abraço terno em tardes de despedidas do sol e da partida que se prolonga em beijos e mãos nas costas e pontas de pé e sussurros ao pé do ouvido e arrepios, cabelos, pescoço, seios aquecidos ao peito, que seja qual for o tamanho, é sempre largo no desmaio das que sonham acordadas atrás de seus óculos escuros a protegê-las dos descarado e escancarado sol.
O sol do trabalho, das compras no mercado, das portas das escolas, das filas no banco, das bancas de jornal anunciando o dia.
Encontros diurnos.
Quantas vezes as mulheres sonham com o rei de copas.
Seus presentes em caixas com formato de coração.
Seus perfumes adocicados, suas frases cheias de otimismo e esperança.
Mulheres sonham com paixões impossíveis e finais felizes.
Mulheres sonham com promessas de alianças, com flores, cartões e lembranças das datas do primeiro encontro, beijo, segredo, do primeiro medo, da última briga, do recomeço. 
Ah, como elas sonham com as pazes, as chances, os perdões, as reconciliações...
Sonham!
Sonham que se enganam e choram suas perdas e confiam na recompensa da paixão renovada, que em algum lugar há de estar sendo preparada e elas sonham que se não for pra hoje é porque a encomenda atrasou-se.
Culpa do carteiro se amor ainda não chegou ao seu endereço.
Elas confiam e esperam o fim da greve dos correios, sonham...
Quantas vezes as mulheres sonham despertar do pesadelo de não sonhar.
Não, mulheres temem que algum monstro sombrio diga: "Cai na real, acorda!!!"
Mulheres morrem de amor...
O amor morre junto com elas. Elas e o amor são uma coisa única.
Toda a mulher é amor. Essencialmente feitas todas elas de amor.
Entre muitas mulheres, soube de uma que hoje nos deixou, morreu de amor...
Desejou ela que o amor morresse, mas ele resistiu bravamente.
Então ela se matou, foi o jeito que encontrou, disse: "Ou EU ou o AMOR".
E como amor venceu, ela faleceu.
Sem dor, simplesmente morreu.
E amor sem ter onde se fazer, por onde existir...
O amor que era belo, também se acabou?
Não sei, talvez vagueie solitário em busca de uma outra mulher que suporte sustentar um amor teimoso.
Quantas vezes as mulheres sonham suportar!!!

Inspirado na sequência: A Imperatriz, O Sol, O Enamorado, A Morte.

Despois de ler, ouça a canção:
https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=BO_g5Ocr4K0





sábado, 9 de março de 2013

A CARTA DA CASA | E que seja hoje.


Foto de Viviane Fracari




Inspirado na sequência: 
A Imperatriz - A Torre - O Mundo - O Sol.
Para: C. M. I.




Preste bem atenção, a lição é simples.
Lápis e caderno na mão. Faça com cuidado sua anotação.
Cuidado para não acertar.
A regra aqui é errar.
Erre bastante!
É provável que você se machuque, alguns ferimentos são bem-vindos.

Quando mergulhamos na piscina vazia, a piscina ainda é piscina.

Não adianta esvaziar.
Não adianta mergulhar às cegas com a cabeça na pedra.
Não adianta.
Precisamos quebrar os azulejos.
Encher de terra o buraco.
Precisamos cimentar até à superfície.

Esvaziar a piscina não é o bastante.
Temos que extinguir a piscina.
Enquanto ela existir, mesmo que vazia, mergulharemos nas suas águas.
Iludidos, alucinados, mergulharemos mesmo já tendo esvaziado.

Conheço a lição.

Depois de ter quebrado os braços, os dentes e o pescoço.
Transformei a piscina em deserto de concreto.
Senti saudade da água e principalmente saudade do mergulho.
Mas não quero mais mergulhar tão fundo.
Quero um banho de banheira bem quentinho.
Um mergulho seguro nas águas de um útero.
Quero já nascer nadando.
Quero já nascer íntima das águas.

Até que um dia, e que seja hoje, a piscina fique rasa perto do meu tamanho.
Quero estar tão crescida, que lá, onde um dia eu mergulhei fundo, brincarei tranquila.
Meus pés tocarão o chão.

Agora dá pé!